O mesmo que "quatorze", dizem os dicionários. E só esta "variedade" seria suficiente para começarmos a discorrer sobre a etimologia do termo, contigo a explicar e eu a ouvir, naturalmente. Saberias mais do que a maioria, tenho a certeza, e o brilho que os teus olhos adquiririam ao te perderes nestas explicações valeriam cada segundo delas por si só. Porque esse brilho era amor em forma líquida, à língua, ao conhecimento, à partilha, a mim...
não é dada pelos ponteiros do relógio nem pela posição do sol... simplesmente sente-se... quando, de repente, faz sentido.
terça-feira, julho 18, 2023
sábado, setembro 17, 2022
segunda-feira, julho 18, 2022
Treze
Tive que contar pelos dedos, o “há quanto tempo” preciso confesso que não me diz nada. A minha resposta é sempre “há tempo demais”…
quarta-feira, maio 18, 2022
A culpa do sobrevivente...
Não é raro hesitar dominada pela anciã noção de que não se deve falar no Diabo sob pena de o convocarmos sem querer e vir dessa forma a sofrer precisamente do que tememos. Não é raro vir aqui, olhar para o ecrã em branco e desistir também dominada pelo cansaço que sei que vou sentir depois. Passei demasiado tempo a fazer por me decifrar, a tentar entender os meus medos, as minhas ações, os meus pensamentos, as minhas tortuosas viagens à terra da angústia, da culpa e da desculpa, da saudade, do rancor, e o domínio de todos eles sobre mim. E também a tentar entender os outros. Hoje aceito-me, na maioria das vezes. Sou nação de Deus e Diabo, de mal e bem, de positivo e negativo, de preto e branco. Sou o que posso quando posso, almejo evolução e luto por ela todos os dias um bocadinho mas assumo e acolho os passos atrás, o reveses. Dos outros não digo nada e entendo pouco, já desisti.
Uma vez ouvi dizerem-me que não me viam "a fazer nada". Na altura, submersa, em modo de sobrevivência, e ainda que me parecesse desadequado da realidade que sentia e que me via a viver todos os dias em esforço, custou-me aceitar este entendimento alheio mas depressa percebi que não era mais que o seu contrário: o desentendimento de que não vê para além do que está à superfície e das afirmações exteriores e exteriorizadas. Como se o que se mostra e o que se diz que se faz fossem verdades absolutas quando, em algum casos, nem verdades são, verdades verdadeiras, verdades nossas, honestas, espelho de quem somos e não de quem queremos parecer, verdadeiramente sentidas. Na realidade, não passam de "verdades" fabricadas que queremos que se tornem reais, tal qual crianças a brincar ao "faz de conta". Talvez tenha sido esse o ponto de viragem no que concerne aos meus esforços - depois reconhecidamente vãos - em entender cabeças terceiras...
Nos meus dias que agora correm, o grande desafio já é outro: conseguir assistir ao desmoronamento de outros mundos à minha volta e aceitar que o filme da minha vida é diferente ao ponto de conseguir agradecer por ele sem temer que me fuja das mãos. E, acima de tudo, sem acatar culpa por isso...
quarta-feira, abril 20, 2022
De quem também era mais...
Procuro despir-me do que aprendi
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu…
PESSOA, F. O Guardador de Rebanhos, In Poemas de Alberto Caeiro
sábado, dezembro 25, 2021
sexta-feira, dezembro 17, 2021
quinta-feira, dezembro 09, 2021
A contar badaladas...
Não falta tempo, falta espírito. Falta energia ou então falta inspiração. Talvez, por um lado, esteja curta de emoções, talvez as que existem sejam demasiado avassaladoras, demasiado terror à flor da pele, é melhor nem mexer, nem tocar, nem falar alto para não as desassossegar. Talvez.
O medo tornou-se companheiro de viagem. Mas, lá está, não o menciono. Não interessa, não lhe dou essa importância, não há-de ser maior que eu. Está lá, tem o seu espaço, o seu canto mas tem que perceber que da sua porta para fora o domínio é meu. Tem que ser meu.
Ouço comentários sobre ele e rio-me. Comentários quase certezas mas de quem nunca o sentiu assim, em toda a sua plenitude. Rio-me e aceno, fingindo concordar, fingindo não ver a ingenuidade e a pretensão. Enchem a boca, como se diz, e eu encho também mas de complacência: não sabem melhor.
Sinto raivas e rancores que percebo serem meus, fazer parte de mim como não queria que fizessem mas olho-os nos olhos e faço mea culpa. E, mais uma vez, esforço-me para os remeter para aquela que quero que seja a sua posição, sob o meu controlo. Corroem-me as entranhas, aqui e ali, causam-me azias e imagino cenários onde os exerço, onde os arremesso para meu alívio. Porque alivia gritar, chamar "os bois pelos nomes", mostrar indignação, exigir mais, revoltarmo-nos, exigir que me deem como eu dou. É o mínimo, acho eu, não nos contentarmos, não aceitar o pouco como suficiente quando não é o pouco o que se dá em troca. "Amor com amor se paga", é assim que deve ser. Duvido de mim própria, questiono se a minha razão me acompanha de facto mas respiro no final, e combino que cabe a mim fazer prevalecer a máxima. Retiro-me de cena, deixo correr, espectadora apenas, corto o fluxo até que o equilíbrio seja reposto. Temos pena.
Tenho a felicidade de conhecer a verdadeira felicidade e agradeço. E por ela, por ser a privilegiada que sou, exijo que a honrem e honro-a assim. Que seja ela o prenúncio de cada badalada.
segunda-feira, julho 19, 2021
Doze
Não me esqueci, nem por um segundo.
Dispensa-se nota no calendário.
Ontem olhei-nos.
Porque era ontem.
De cada vez que o faço, nunca parece distante.
Estás aqui.
Comigo.
Doze.
Menos doze para nos vermos outra vez.
quarta-feira, julho 07, 2021
Let the games begin...!
Um dia antes ouvi a pergunta: estás preparada? Não hesitei em dizer que sim porque senti no imediato que sim. Estou preparada, para esta e qualquer outra volta, ao sol, à lua, ao mundo. Estou preparada para viver, sim, andar para a frente, correr mundo e emoções, beber dos instantes e das coisas pequenas, deslumbrar-me com as grandes.
Ontem lá se deu início a mais uma volta ao sol e hoje, no rescaldo, verifico que nunca deixo de me emocionar com o amor que me têm e que me dão... beijos, muitos beijos, bolo de aniversário levado à cama, abraços, sorrisos, mensagens, sms, gifs, telefonemas, vídeochamadas, gargalhadas de longe e de perto, telegramas cantados e sinais de fumo... foi tudo recebido, assimilado e acrescentado cá dentro. De verdade.
Sou uma sortuda que não se pode...
quinta-feira, maio 06, 2021
segunda-feira, fevereiro 08, 2021
terça-feira, dezembro 29, 2020
Expiação
Já demos a volta ao mundo que é a minha cabeça. E embora não nos tenhamos detido em todos os seus recantos o mesmo número de conversas, é justo considerar que já estamos perante um retrato bastante fiel das minhas viagens até este ponto. Mas sentia que, em cantos recônditos, adormecidos entre pedras de uma qualquer cascata do meu planeta interior - daqueles que vemos nos filmes, que existem por trás da queda de água e onde só chega quem não teme não ver tudo às claras - permaneciam intocados alguns nós que, de quando a quando, se sentiam sob a pele. São nós antigos, não necessariamente com relação uns com os outros mas claras opções de esquecimento até ao dia em que não fosse mais possível esquecer.
De há uns tempos para cá, e talvez por não sobrar muito a requerer remédio ao de cima, têm-se chegado à frente e feito por me recordar que existem. E, mais do que existirem, que magoam, ainda magoam, e talvez que nunca possam não magoar. Isto é, enquanto não forem desatados ou, pelo menos, afrouxados.
Convenceram-me, tinha chegado a hora. E, de forma estudada, organizei-os cronologicamente e resolvi-me a abordá-los. Sentámos-nos frente a frente, copo de vinho tinto na mão, respirei fundo e mergulhei no tempo até ao seu tempo, até aos primórdios da sua história, o quê, o quando, o como, até ao que são ainda para mim. Chamei-lhes "culpas" e tenho vindo a dissecá-las como boa cristã que se calhar até quero ser.
O que notei primeiro foi a clareza com que me ocorreram pormenores que julgava já ter esquecido ou, tão pouco, nunca ter fixado, o que acabou por torná-los vívidos em mim de uma forma pouco ortodoxa. Por vezes, juro que me assustei com a sua definição tão demarcada mas tão pouco própria do que o tempo já devia ter corroído, deformado, amarelado. Dei por mim a ter que parar por vezes uns segundos para então os conseguir encaixar na narrativa pré preparada enquanto fechava a boca aberta de surpresa: "Nunca mais me tinha lembrado disto...".
Mas avancei, conta a conta, desfiando os seus rosários. Tinha que lá ir, tocar-lhes, de dedo espetado onde doesse mais, de dedo espetado que acusa, e falar-lhes em voz alta, falar-me em voz alta. Sem subterfúgios. A realidade como foi e como é, as culpas escancaradas sem nada que lhe tapasse as partes pudendas.
Encontrei-me de novo comigo, com eus que até já me tinha esquecido que uma vez existiram. Vi-me a cara, as expressões, de ilusão nos olhos, a ingenuidade, a santa ingenuidade. Vi-me coitada, pequena, nada preparada para lidar com o que me aparecia pela frente, cheia de certezas que fui buscar a lugar nenhum. Vi-me a querer fazer bem, melhor, mais, a tentar seguir em frente e a tropeçar nos meus próprios pés. Vi-me demasiado nova a braços com pesos pesados de gente grande e demasiado velha para poder voltar atrás. Vi-me a magoar, a fazer sofrer e vi-me a tentar salvar-me de submergir. E reconheci as dores que daí advieram e que se deixaram ficar comigo até agora.
Culpa. Há lá coisa mais católica apostólica romana...
Não foi tudo de uma vez. O que achava que relatava em três pernadas acabou por levar um pouco mais, cada pormenor puxando pela mão do outro, cada pedra removida a revelar mais qualquer detalhe que afinal ainda por lá andava e que ajudava a compor o ramalhete, mas lá repassei as cenas e ordenei em fila os acusados para que se expusessem de uma vez e de uma vez se oferecessem à expiação. Sem julgamento, que esse eu já tinha feito há muito.
Não foi tudo de uma vez mas o sopro com que me apercebi do quão simples era desmontar as minhas acusações quase de uma vez só me deitou ao chão. Ali estava eu, corpo em apneia, oferenda às balas, pronta para receber os merecidos castigos, quando sou obrigada a descer do alto da minha responsabilidade, arraigadamente e religiosamente assumida, e a ver-me tão somente inocente. Tão somente... um pequeno pormenor, um simples substantivo foi o suficiente para, em poucos segundos, se desmontarem anos de laborioso investimento na construção dos megaprocessos contra a minha própria pessoa: intenção. A culpa só o é de verdade quando tem por base acto com intenção. E, a bem da verdade, dessa intenção eu nunca sofri...
Ali e assim fiquei eu, desconcertada, aparvalhada, a sentir uma leveza que me desconjuntava de tão habituada que estava ao peso nos ombros. Ali fiquei, sem perceber muito bem como me interpretar e como me definir agora. Agora que já não era culpada, agora que afinal não tinha nada para expiar... quem era aquela que agora era eu..?
Não vou dizer que renasci. Não vou dizer porque ninguém renasce três vezes e eu, seguramente, já renasci duas. Mas talvez me tenha renovado. Continuo a pedir desculpas quando adormeço porque não deixo de sentir o lamento por quem por mim se doeu mas sou agora dona de uma paz que não conhecia.
E, tenho que dizer, é uma paz nova, que se me encaixa bem...
quarta-feira, novembro 18, 2020
Perfil
“Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness, and many of our people need it sorely on these accounts. Broad, wholesome, charitable views of men and things cannot be acquired by vegetating in one little corner of the earth all one's lifetime.”
Mark Twain
quarta-feira, julho 22, 2020
Das maravilhas que se encontram por acaso...
Vêm com a sua charanga salvar-nos de nós próprios, amigos, amantes, parentes, para não falar nas esposas.
Toda a gente nos quer dar esmola.
Só ninguém nos quer nus,
só ninguém percebe que uma só coisa nos podem dar realmente, é olharem para a nossa alma nua e dizer:
- Está bem, assim seja.
Então seria o amor"
Adolfo Casais Monteiro
Estrangeiro Definitivo
1961
sábado, julho 18, 2020
C.P.F. ou não há coincidências...
A mais nova de nós herdou a memória que faltou aos outros três e passou a história à sua prole: letra, música, tudo. E hoje, justamente hoje, as almas mais pequenas de agora passaram-na para o papel...
"Uma tenda, uma bandeira
E as férias vão começar
Somos primos na brincadeira
Todos têm que alinhar.
2x
Ninguém se balda,
Ninguém é chefe
Todos trabalham
No C.P.F."
terça-feira, janeiro 28, 2020
Felicidade
quinta-feira, dezembro 19, 2019
Do Natal, das palavras que me tocam sem que esteja à espera, do mergulho que dou nelas e onde me deixo ficar com prazer...
1. O Cardeal Tolentino de Mendonça, reclinado perante o Papa Francisco, perguntou-lhe: “Santo Padre, o que me fez”. Naquele momento em que o Papa, na Basílica de São Pedro, cumprimentava cada um dos 13 novos cardeais, o novo bibliotecário do Vaticano sentiu o tempo parar. Francisco respondeu que ele era a poesia. E seguiu.
2. Já passaram mais de dois meses, o tempo infelizmente não trava como nos momentos de grande jubilo interior, continua sempre. E anteontem, Tolentino de Mendonça tomou posse da sua Igreja em Roma, a Igreja dos Santos Domenico e Sisto que é parte do complexo da Universidade de São Tomás de Aquino. Fica no Largo Angelicum, em Roma, e os dominicanos são os seus guardiões.
3. O Cardeal Tolentino de Mendonça, o rapaz pobre de Machico, filho de um pescador, continua e escrever poemas. E a ser um habitante do silêncio… apesar de toda a balbúrdia, de todo o chinfrim do mundo, ele continua a ser a criança que atravessa o mundo. Conhecem o meu poema preferido entre todos os que escreveu?
“Travessia da infância
Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas
lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo
não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias
só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo
mas isso foi depois
muito depois
repito”
4. Tolentino já tem a sua igreja em Roma. Era bom que as coisas fossem assim tão fáceis. Feitas de regras humanas, de procedimentos, vamos para aqui porque está destinado por isto ou por aquilo. Mas não é, a viagem é outra. Entramos e não sabemos para onde o autocarro nos leva. O filho do pescador, que um dia se poderá tornar um pescador de homens, está em plena viagem. Como nós. Como tu. E eu. Estamos no comboio sem saber o destino ou as estações onde ele nos pode deixar ou abandonar.
5. E Deus, Tolentino? Como o ver se somos cegos? Como o ouvir se somos surdos? Como lhe tocar se os nossos dedos continuam sem sensibilidade? E o Natal, Tolentino? O que é este barulho que para aqui vai? Escrevo-te daqui para aí. Espero que te chegue, à tua igreja talvez, em Roma, num largo movimentado de jovens cobertos de sonhos. Um dia escrevi um texto sobre Deus, pensei em ti quando o coloquei por palavras.
“O meu Deus não tem voz grossa, tem a que imagino. O meu Deus não me castiga, oferece-me liberdade. O Meu Deus não me chantageia, acredita na responsabilidade. O meu Deus não me corta o desejo, recomenda-me uma canção. O meu Deus dança comigo quando danço sem par. O meu Deus tem humor, escuto-o e sei do que falo. O meu Deus está aqui, se me virar rápido ainda o vejo. O meu Deus é um pressentimento, uma promessa, é o bem e o mal, sou eu nos piores dias. É esperança e virtude. O meu Deus acredita em mim.” (Em Amor, Oficina do Livro, 2016)
É isto, Tolentino. Tu és a poesia. Um Santo Natal
Luís Osório


