Penso que não houve ninguém que não te tivesse alertado: exageraste, continuavas a exagerar. Consumido pela dor que te trespassava a pele não olhaste a meios para me cobrar o que achavas que te devia: dor igual. Medias as palavras certificando-te que a tua escolha recaía sobre as mais afiadas, as que provocariam maior estrago. Formatavas o modo de maneira a que não me restassem dúvidas: eras agora um muro, qualquer tentativa da minha parte de o escalar e chegar a ti seria draconianamente repelida. Um dia, cansei-me: tu continuaste a exagerar - sozinho.
não é dada pelos ponteiros do relógio nem pela posição do sol... simplesmente sente-se... quando, de repente, faz sentido.
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domingo, dezembro 10, 2017
quinta-feira, janeiro 16, 2014
Exercitando #2
"Naquele dia não queria..."
Naquele dia não queria pensar. Decidi, aliás, justamente naquele dia, que não iria pensar mais. Ensaiei o discurso e entrei porta adentro, decidida de decisão nas mãos e na ponta da língua, decidida de cansaço, decidida de coragem. O ciclo iria quebrar-se e, por mais que o quisesse, por mais que desse fim necessitasse, tinha medo. Mas entrei: decidida.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, a ânsia nos olhos falou por mim e a pergunta não se fez rogada: o que se passa?
Estanquei uns segundos de forma a tentar travar as lágrimas que se empurravam umas às outras mas foi em vão: o discurso ensaiado perdeu-se no espaço, a decisão tão decidida revelou as pernas bambas, o medo gritou abafando tudo em seu redor. Entre lágrimas e soluços, tentei recuperar o fio da meada das minhas razões e expliquei o meu objectivo: parar. Parar de pensar, de analisar, de escrutinar. Parar de tentar entender, de tentar encontrar respostas, de me dar explicações. Parar. Aceitar as perguntas no ar, aceitar os vazios e, a partir daí, viver. Queria só parar. Para viver.
quarta-feira, dezembro 11, 2013
Exercitando
O mote era a frase "E foi quando menos o esperava que...", o texto não deveria ter mais de 200 palavras (bless you, word count!).
A mim saiu isto:
"E foi quando menos o esperava que caí. Não sei de quantos metros, talvez porque a métrica da alma responda a diferentes regras, mas sei que caí no fundo mais fundo de mim e lá fiquei, atordoada, sem saber como me levantar. De início, neguei: ignorei a escuridão concentrando-me no ponto sumido de luz que ainda conseguia vislumbrar do que tinha sido a minha vida, do que eu tinha sido. Agarrei-me com unhas e dentes a essa memória e fingi que continuava a ser aquela pessoa. Não… não fingi. Acreditei porque precisei acreditar, porque não conhecia mais nada. Aquela era a única versão de mim, para mim. Mas nada é mais violento do que forçar uma forma de gente num molde onde esta já não encaixa... E a minha natural persistência, de menina que não se conforma, de mulher que sempre se acreditou guerreira, tornou-se a minha pior inimiga: pássaro que se atira contra as grades.
Julgo ter conseguido parar antes de as fendas na pele se tornarem feridas demasiado profundas. Assumi, aceitei que a guerra estava perdida e com isto comecei a vencê-la. Desisti de me agarrar a quem era para passar a ser, verdadeiramente, quem me tinha tornado."
quinta-feira, janeiro 24, 2013
História
Podia contar-te a minha história. Mas prefiro, para já, ficar a olhar para ti enquanto contas a tua. A tua que queres contar. Podia contar-te a minha história mas pergunto-me se a queres saber... é a primeira vez que estamos assim, frente a frente, com espaço e tempo para sentirmos quem está do outro lado da mesa. Desde o dia em que nos conhecemos, porque amigos em comum imaginaram em nós empatia, três emails, várias mensagens, dois telefonemas e, finalmente, o convite para jantar. Aqui estamos. Podia contar-te a minha história mas será isso que se quer de uma primeira vez? Não... não se quer passado, traumas, outras vidas, outros amores. Isso vem depois. Numa primeira vez quer-se ilusão, quer-se brilho nos olhos e expectativas, quer-se folha em branco onde se poderá começar a escrever uma nova história cheias de possibilidades... quer-se início e não fim. Podia contar-te a minha história mas não acho que consiga ultrapassar o olhar que te adivinho e que irá denunciar a contrariedade em ter que lidar com a podre normalidade quando o que queres é que, desta vez, seja especial, diferente, sonho, nem que seja só por hoje. Podia contar-te a minha história mas não acredito que a vás entender. Parecer-te-á uma história banal, como tantas outras, uma história de toda a gente, de perdas e corações partidos, igual à da prima afastada ou às dos romances. Vais dizer que sim, que percebes, se calhar que até já por lá passaste, mas não vai saber como a senti eu, a essa história banal, não vais compreender como sulcou traços novos no meu rosto, como me fez ter pesadelos nunca antes tidos, como alimentou monstros de mágoa e dor e ódio e quase me fez deixar ser consumida por eles, como me fez duvidar de quem era. E me fez desistir de quem era. Porque não me conheces o antes, não me conheces o agora, não sabes qual é o ritmo do meu coração nem onde estão os meus terminais nervosos, não sabes de onde vim e o que trouxe nos meus genes, não sabes em que sentido circulam os meus medos, as minhas paixões, os meus desejos. Não sabes o significado dos meus sorrisos nem dos meus suspiros nem das palavras não ditas. Podia contar-te a minha história mas não acho que a mereças saber, para já. É preciso saber-me para saber, é preciso entrar em mim para entrar em mim... Podia contar-te a minha história mas não o vou fazer. Vou fingir, aqui e agora, sorrir, gracejar, fazer charme, dizer coisas inteligentes, pousar como mulher resolvida, sem medos e sem bloqueios, vedeta de Hollywood que vende sonhos por atacado. Vou ser o que queres que seja, o que eu quero ser hoje, mesmo que só hoje. E vou enganar-me convencendo-me que tu também só és uma folha em branco.
sábado, novembro 19, 2011
Delírios
Evadi-me e elevei-me neste plano de forma a ver-te de cima, lá do alto. Pairei pelo espaço observando-te. Estavas no chão da sala, encolhida a um canto, abraçando-te com força, com tanta força!, os teus braços enlaçados no teu próprio tronco. Com os olhos empurravas o dilúvio para fora de ti enquanto os lábios murmuravam sem parar: Que bom que vieste! Que bom que me ouviste e vieste. Tive tantas saudades tuas, tantas! Que bom que estás aqui e que nos podemos abraçar. Fica. Fica só mais um bocadinho...
quarta-feira, novembro 16, 2011
Inauguração
Começo aqui um novo capítulo. Deixo, de vez em quando, de falar de mim ou das coisinhas do meu mundo e dou largas à imaginação. Invento coisinhas dos mundos de outros, dos mundos de qualquer um. Vamos ver como corre.
Com os olhos bem abertos a fixar os meus disseste: "Amo-te, adoro-te, e é tão fácil amar-te, o difícil é tudo o resto...". E viraste as costas deixando no ar uma nuvem de perfume. Fiquei ali, parado no meio da rua, a ver-te seguir o teu caminho, viraste as costas e não olhaste mais para trás. Fiquei quieto e a sorrir porque disseste que me amavas e o teu perfume ficou e continuava a envolver-me, sorria porque me amavas-me e o tom do amor na tua boca era tudo o que eu queria ouvir. Mas, a pouco e pouco, quanto mais te afastavas, o sorriso que me ofereceste começava a esmorecer. Tentando processar a informação, o meu cérebro masculino ameaçava entrar em colapso porque a equação que me apresentaste não parecia fazer qualquer sentido...
Pensei naquele comediante norte-americano que tu adoravas e que uma vez ouvimos descrever a diferença entre o cérebro das mulheres e dos homens. O dos homens é composto por compartimentos estanques de sentimentos e pode-se dizer que se assemelha à arrecadação de um prédio. Entra-se por um corredor e há portas dos dois lados, cada uma dando lugar ao seu espaço, nenhum comunicando entre si; cada espaço corresponde à sua verdade, em frente existe o espaço oposto. Por exemplo, temos o Bonito e o Feio, o Doce e o Amargo, o Amor e o Desamor. A acrescentar, cada sentimento ou sensação comporta na sua casinha as suas devidas respostas, as alternativas fornecidas ao humano em causa para dar seguimento ao sentimento-mãe. No caso do Doce, a resposta poderá ser um sorriso ou a busca da receita daquela sobremesa que a minha avó fazia ou ainda uma chamada de atenção por causa da diabetes hereditária, quem sabe.
A tua frase avançou pelo corredor encabeçada pelo Amor e a essa porta se dirigiu mas ao entrar percebeu que não existia ali forma de lhe dar seguimento, a resposta que trazia na cauda não estava prevista no leque correspondente, a frase que me deste era uma equação errada, mal elaborada, junção de elementos que não se podiam compreender num mesmo espaço. Não era ali considerado possível que a resposta ao "Amor" fosse "Virar as costas e ir embora sem olhar para trás". E assim, a tua e minha frase ficou perdida no limbo do corredor, sem saber para onde se virar, orfã de porta onde bater.
Fiquei parado no meio da rua, já sem ti no horizonte e os meus olhos nublavam com a sombra da equação impossível a latejar no meu cérebro. Não a entendia, não a conseguia entender, não conseguia fazê-la pertencer a lugar nenhum, não conseguia que produzisse nenhum resultado lógico. O resto da tarde, no escritório, foi passado a escrevinhar num papel diversas hipóteses de sequências com os elementos que me deste na esperança de encontrar a formulação correcta para que tudo, afinal, fizesse sentido. Não consegui. À noite, juntei-me ao André e ao Rodrigo no bar e expus-lhes o problema entre uma imperial e outra e como resposta obtive silêncio, nenhum deles conseguiu encontrar a solução. Mais tarde, deitei a cabeça na almofada com o teu perfume entranhado, o cérebro masculino cansado de não entender e adormeci enrolado na crueldade do amor que me deste.
Com os olhos bem abertos a fixar os meus disseste: "Amo-te, adoro-te, e é tão fácil amar-te, o difícil é tudo o resto...". E viraste as costas deixando no ar uma nuvem de perfume. Fiquei ali, parado no meio da rua, a ver-te seguir o teu caminho, viraste as costas e não olhaste mais para trás. Fiquei quieto e a sorrir porque disseste que me amavas e o teu perfume ficou e continuava a envolver-me, sorria porque me amavas-me e o tom do amor na tua boca era tudo o que eu queria ouvir. Mas, a pouco e pouco, quanto mais te afastavas, o sorriso que me ofereceste começava a esmorecer. Tentando processar a informação, o meu cérebro masculino ameaçava entrar em colapso porque a equação que me apresentaste não parecia fazer qualquer sentido...
Pensei naquele comediante norte-americano que tu adoravas e que uma vez ouvimos descrever a diferença entre o cérebro das mulheres e dos homens. O dos homens é composto por compartimentos estanques de sentimentos e pode-se dizer que se assemelha à arrecadação de um prédio. Entra-se por um corredor e há portas dos dois lados, cada uma dando lugar ao seu espaço, nenhum comunicando entre si; cada espaço corresponde à sua verdade, em frente existe o espaço oposto. Por exemplo, temos o Bonito e o Feio, o Doce e o Amargo, o Amor e o Desamor. A acrescentar, cada sentimento ou sensação comporta na sua casinha as suas devidas respostas, as alternativas fornecidas ao humano em causa para dar seguimento ao sentimento-mãe. No caso do Doce, a resposta poderá ser um sorriso ou a busca da receita daquela sobremesa que a minha avó fazia ou ainda uma chamada de atenção por causa da diabetes hereditária, quem sabe.
A tua frase avançou pelo corredor encabeçada pelo Amor e a essa porta se dirigiu mas ao entrar percebeu que não existia ali forma de lhe dar seguimento, a resposta que trazia na cauda não estava prevista no leque correspondente, a frase que me deste era uma equação errada, mal elaborada, junção de elementos que não se podiam compreender num mesmo espaço. Não era ali considerado possível que a resposta ao "Amor" fosse "Virar as costas e ir embora sem olhar para trás". E assim, a tua e minha frase ficou perdida no limbo do corredor, sem saber para onde se virar, orfã de porta onde bater.
Fiquei parado no meio da rua, já sem ti no horizonte e os meus olhos nublavam com a sombra da equação impossível a latejar no meu cérebro. Não a entendia, não a conseguia entender, não conseguia fazê-la pertencer a lugar nenhum, não conseguia que produzisse nenhum resultado lógico. O resto da tarde, no escritório, foi passado a escrevinhar num papel diversas hipóteses de sequências com os elementos que me deste na esperança de encontrar a formulação correcta para que tudo, afinal, fizesse sentido. Não consegui. À noite, juntei-me ao André e ao Rodrigo no bar e expus-lhes o problema entre uma imperial e outra e como resposta obtive silêncio, nenhum deles conseguiu encontrar a solução. Mais tarde, deitei a cabeça na almofada com o teu perfume entranhado, o cérebro masculino cansado de não entender e adormeci enrolado na crueldade do amor que me deste.
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