quinta-feira, março 31, 2011

O vestido

A querida E. no provador, a experimentar um vestido. Preto e rosa. Algo de preto, muito de rosa. Decotado. Curto. Justo. Daqueles que têm escrito em todas as pregas e dobras "sexy móda foca" ou, para quem não é muito dado às línguas estrangeiras, "boazona como o c*****!". Curto, bastante curto, justo, bastante justo, rosa, bastante rosa... e pergunta-me:

- Diz-me lá, eu posso levar isto para o trabalho, não posso? Assim com uns sapatos rasos, simples, um casaco de malha preto, pronto, para ficar tudo mais discreto, não achas?

Por momentos hesitei. Por segundos. E depois, porque alguém tinha que o fazer, respondi:

- Querida, esse vestido não é discreto nem nunca vai ser em toda a sua existência. Por isso, mentaliza-te, ultrapassa essa parte e compra-o por aquilo que ele é!
- (risos) Tens razão... que se lixe, vou comprá-lo! Eu até tenho coisas bem piores! ;)

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Just another day in paradise...

Copiando descaradamente.... mas quem diz a verdade não merece castigo, não é..?

"Não posso dizer que seja a primeira vez que o escreva mas nem por isso deixa de ser menos verdadeiro: gosto de regressos.

Este é apenas mais um, em que me passeio por palavras que aqui ficaram ao pó do que já fomos e escrevemos. E no entanto, tão familiares, tão à nossa espera. Foi a ideia do regressar que me convenceu a ocupar esta casa.

Na nossa vida há demasiadas partidas e despedidas e uma falta gritante de regressos. O amor, por exemplo, é sempre uma viagem que se inicia, que, por mais doce que seja, é assustadora. Ficamos sem rumo, não sabemos o que pode acontecer, que imensos icebergues podem estar emboscados e prontos a afundar o Titanic afectivo que tanto trabalho nos deu a construir. E às vezes acontece o naufrágio, e podem ser derivas até ao próximo resgate. Até ao próximo regresso a essa mesma partida que pouco antes juráramos nunca mais fazer.

Nunca compreendi bem o aforismo que diz que nunca devemos regressar aos lugares que nos fizeram felizes. Eu acho que sim, desde que se tenha o cuidado de não ambicionar vivê-los como antes. Esse é um regresso que pressupõe a coragem de lidarmos com o que fomos e com o que somos, mas nem por um minuto mata a felicidade que terá existido. Ela já é parte do nosso património tal como a dor que por vezes se pode seguir. Regressar devolve-nos sempre ao que somos, aqui e agora – nunca ao passado.

Depois, temos a sorte de muitos terem deixado pistas belíssimas, verdadeiras auto-ajudas que nos indicam caminhos e sugerem escolhas. Assim de repente, nesta escrita meia apressada, lembro-me da parábola do Filho Pródigo, que sugere o mais belo dos regressos – o regresso a Deus. Lembro-me de um livro que há tanto tempo me atravessou o coração: Para Sempre, de Vergílio Ferreira, constrói-se a partir de um regresso doloroso mas necessário. Outro célebre regresso foi provocado por uma trincadela num bolo. Resultado: A La Recherche Du Temps Perdu. Também é verdade que muitas vezes, «home is so sad», como garantiu Larkin. Mas é preciso regressar para compreender e voltar a partir.

Regresso ao que disse: não existem suficientes regressos na nossa vida. E sabemos que todos nós – todos – somos Ulisses, Penélope e Ítaca de nós mesmos, em simultâneo- Queremos sempre partir, queremos sempre esperar com zelo e amor, queremos ser o lugar mítico onde alguém irá regressar um dia. Eu continuo à espera, enquanto preparo a nova partida para um novo regresso."

"O regresso" publicado por Nuno Miguel Guedes in http://sinusitecronica.blogs.sapo.pt/74686.html

Frase do dia

"Uma grande quantidade de talento é desperdiçada pela falta de um pouco de coragem. Cada dia envia para os seus túmulos homens obscuros, cuja timidez os impediu de fazer uma primeira tentativa."

Sydney Smith

Sono... muito sono..!

Hoje só lá vou a litradas de chá verde...

quarta-feira, março 30, 2011

Ping pong

Entendo, cada vez entendo mais. As suas razões não me demovem mas diria que o defeito é capaz de ser meu... e entendo.

Fazer valer os nossos direitos dá trabalho. Não devia dar, os direitos de todos nós deveriam ser pontos assentes, inequívocos, parte de nós, subjacentes e implícitos à nossa condição de cidadãos. Não são. E dá trabalho lutar por eles, pois dá, porque, tristemente, e na maioria dos casos, implica de facto luta! Esforço, horas ao telefone, emails, cartas registadas, paciência, tempo, disponibilidade, capacidade para altercações mais ou menos civilizadas, espera, espera, espera, repetição do que já se disse um milhão de vezes, no fundo, nervos de aço, luvas de boxe e, acima de tudo, cabeça dura, muito dura!

Entendo que a maioria das pessoas desista. Entendo que a maioria das pessoas considere que o trabalho que dá reclamar não compense o que se ganha e por isso preferem pagar ou vender ou desistir e comprar novo. Entendo porque estamos cansados, porque já basta o que temos que aturar, o que nos é imposto, não vamos criar mais um problema com as nossas próprias mãos! Por isso, que se lixe, pague-se, venda-se, desista-se...

Entendo mas só em parte. Dá trabalho, dá. Custa explicar e explicar outra vez, custa que a nossa exposição, tão cuidadosamente preparada e fundamentada, muitas vezes nem seja lida com consideração merecendo logo o carimbo do "não é connosco", custa ser enviada de entidade em entidade, cada uma sacundindo a água do capote e, mais grave ainda, nenhuma sequer sabendo informar a que porta podemos, de facto, bater. Pode ser desesperante...! É desesperante!

Mas há um outro lado. E esse lado nada tem a ver com o gosto por causas perdidas ou com alguma tendência socialista, como já ouvi, nem com uma certa ingenuidade, de quem ainda não conseguiu convencer-se que a máxima "e foram felizes para sempre" fica bem é nos livros infantis e não deve sair de lá.

Perdoem-me a eventual pretensão mas esse é um dos lados da natureza de quem faz andar o mundo. É dessa massa que se compõem quem não se resigna, quem questiona, quem tem sentido crítico e quem faz alguma coisa com ele para além de se ouvir.

terça-feira, março 29, 2011

De... terror?!?

E quando dei conta, o estranho de meia idade estava posicionado de forma a ter por cima da sua cabeça... as minhas cuecas fio dental!!!!

Aaaarghh!! A minha vida é um filme!

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Já chorei, já ri, já dei biqueiros na parede, já disse palavrões, já chamei nomes. Já me acalmei, já esfriei a cabeça, já agi, já pus os pensamentos e sentimentos de lado para fazer o que tem que ser feito. Já relaxei e já me sobressaltei. Já mimei e fui mimada, já perdi a paciência, já a recuperei. Já falhei e já cumpri. Já trabalhei, já pus o trabalho de lado, já desabafei, já ouvi, já escrevi, escrevi, escrevi. Já me ausentei, já me perdi, já me encontrei, já estou aqui.

segunda-feira, março 28, 2011

Porque cada vez gosto mais desta senhora!

Rolling In The Deep
Adele

There's a fire starting in my heart,
Reaching a fever pitch and it's bring me out the dark,
Finally, I can see you crystal clear,
Go ahead and sell me out and I'll lay your shit bare,
See how I'll leave with every piece of you,
Don't underestimate the things that I will do,

There's a fire starting in my heart,
Reaching a fever pitch and it's bring me out the dark,
The scars of your love remind me of us,
They keep me thinking that we almost had it all,
The scars of your love, they leave me breathless,
I can't help feeling,

We could have had it all,
(You're gonna wish you never had met me),
Rolling in the deep,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
You had my heart inside of your hands,
(You're gonna wish you never had met me),
And you played it to the beat,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),

Baby, I have no story to be told,
But I've heard one on you and I'm gonna make your head burn,
Think of me in the depths of your despair,
Make a home down there as mine sure won't be shared,

The scars of your love remind me of us,
(You're gonna wish you never had met me),
They keep me thinking that we almost had it all,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
The scars of your love, they leave me breathless,
(You're gonna wish you never had met me),
I can't help feeling,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),

We could have had it all,
(You're gonna wish you never had met me),
Rolling in the deep,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
You had my heart inside of your hands,
(You're gonna wish you never had met me),
And you played it to the beat,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),

Could have had it all,
Rolling in the deep,
You had my heart inside of your hands,
But you played it with a beating,

Throw your soul through every open door,
Count your blessings to find what you look for,
Turn my sorrow into treasured gold,
You'll pay me back in kind and reap just what you've sown,
(You're gonna wish you never had met me),

We could have had it all,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
We could have had it all,
(You're gonna wish you never had met me),
It all, it all, it all,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),

We could have had it all,
(You're gonna wish you never had met me),
Rolling in the deep,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
You had my heart inside of your hands,
(You're gonna wish you never had met me),
And you played it to the beat,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),

Could have had it all,
(You're gonna wish you never had met me),
Rolling in the deep,
(Tears are gonna fall, rolling in the deep),
You had my heart inside of your hands,
But you played it, You played it, You played it,
You played it to the beat

sexta-feira, março 25, 2011

(Des) necessidades

Às vezes sinto-me sem palavras. Perante situações perfeitamente absurdas e reveladoras de um raciocínio torpe e descabido, de desfragmentação e deturpação das mais básicas noções de bom senso, de comportamento quase esquizofrénico e doente, fico sem palavras. Nos primeiros segundos. A verdade mais absolutamente verdadeira é que fico sem palavras apenas até o meu cérebro reconhecer a crassa estupidez humana com que está a lidar e "ir buscar" ao arquivo a resposta adequada. Uma questão de um certo delay, portanto. A partir daí, as palavras jorram em cascata, encadeadas, cada uma trilhando caminho para a seguinte, cada "abertura de gaveta" activando em cadeia a abertura de todas as outras e dos seus raciocínios subjacentes. Até que o tal arquivo esteja totalmente à superfície, perfeitamente organizado, activo, pronto para ser usado a meu bel-prazer.

Podia aqui expôr com todas as letras o que penso e como penso. Podia "chamar os bois pelo nome", podia "pôr o dedo nas feridas", podia, como tão bem sei fazer, ir directa ao ponto e, certeiramente, atingir o alvo bem no seu âmago, sem deixar margem para dúvidas sobre a minha pretensão. Sem usar metáforas, linguagem mais ou menos velada ou elaborada, podia falar um português corrente, simples, cru, até básico, um português politicamente incorrecto mas altamente eficiente quando se trata de passar a mensagem certa. Podia, sim, sem qualquer subtileza nem remorso pela sua ausência. Podia insultar, deitar abaixo, pisar, escarnecer, ironizar e fazê-lo com a graça rude de quem não tem "papas na língua". Podia, sim. E confesso que até me daria um certo gozo. Mas não o vou fazer. E porquê? Porque... não é preciso.

Astro... lábia

Hoje: "O amor será o tema principal desta semana, apesar de muita demanda no seu trabalho. A sua forma de amar e os romances estão beneficiados."

Esta semana? Mas... é 6ª feira... de que semana estamos a falar exactamente??

Enjôo matinal

Sento-me aqui, preparada para enfrentar com optimismo o dia da semana de que mais gosto, e ouço uma colega ao telefone:

- Ai coitadinha, nem imaginas! O bebé era grande e rasgou-a toda, toda, toda! Coitada, que horror!

Juro! A sorte destas gajas é que eu sou impressionável... não fosse o vómito incontrolável e eu tinha dado dois gritos bem dados! Irra!

quarta-feira, março 23, 2011

Balancé

Me, myself and I

Às vezes dou-me uma irritação..!

Atitude


E à noite a mãe liga...

- Mãe, olá, então, tudo bem?
- Sim, olha, estou a ligar para te dizer o seguinte: ligou-me agora a tia F. e vê lá tu que me disse... blá, blá, blá... mas eu até achei estranho porque... blá, blá blá... e já da outra vez a A. e o J. agiram desta forma! e eu disse... blá, blá, blá... ora não se admite que tendo em conta que... blá, blá, blá... eu acho inacreditável e disse-o com todas as letras... blá, blá, blá... porque é preciso descaramento... blá, blá, blá... já da outra vez foi o que foi e a tia L. também concordou que... blá, blá, blá... é, de facto, impressionante como as pessoas conseguem não ter o mínimo de decência... blá, blá, blá... e eu ainda acrescentei que... blá, blá, blá... ficaram todos admirados porque... blá, blá, blá... mas realmente desta gente não se pode esperar outra coisa... blá, blá, blá... tenho pena é que não me tenham dito directamente que aí haviam de ver!, essa agora... blá, blá, blá... de facto, isto anda tudo ao contrário... blá, blá, blá... as pessoas são uma coisa que não se entende... blá, blá, blá... eu fico furiosa com estas coisas.... blá, blá, blá... não achas que tenho razão??
- Pois, eu ach...
- Ai, pronto, falamos depois. Tenho que desligar que está a recomeçar a novela. Adeus!
(Click, tuuu... tuuu... tuuu... tuuu...)

terça-feira, março 22, 2011

Geração à Rasca — Mia Couto

Um dia, isto tinha de acon­te­cer.
Existe uma gera­ção à rasca?
Existe mais do que uma! Cer­ta­mente!
Está à rasca a gera­ção dos pais que edu­ca­ram os seus meni­nos numa abas­tança capri­chosa, protegendo-os de difi­cul­da­des e escondendo-lhes as agru­ras da vida.
Está à rasca a gera­ção dos filhos que nunca foram ensi­na­dos a lidar com frus­tra­ções.
A iro­nia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e tam­bém estão) à rasca são os que mais tive­ram tudo.
Nunca nenhuma gera­ção foi, como esta, tão pri­vi­le­gi­ada na sua infân­cia e na sua ado­les­cên­cia. E nunca a soci­e­dade exi­giu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exi­gido nos últi­mos anos.

Des­lum­bra­das com a melho­ria sig­ni­fi­ca­tiva das con­di­ções de vida, a minha gera­ção e as seguin­tes (actu­al­mente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das difi­cul­da­des em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e qui­se­ram dar aos seus filhos o melhor.
Ansi­o­sos por subli­mar as suas pró­prias frustrações, os pais inves­ti­ram nos seus des­cen­den­tes: proporcionaram-lhes os estu­dos que fazem deles a gera­ção mais qua­li­fi­cada de sem­pre (já lá vamos…) mas tam­bém lhes deram uma vida desa­fo­gada, mimos e mor­do­mias, entra­das nos locais de diver­são, car­tas de con­du­ção e 1º automóvel, depó­si­tos de com­bus­tí­vel cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes fal­tasse. Mesmo quando as expec­ta­ti­vas de pri­meiro emprego saí­ram gora­das, a famí­lia con­ti­nuou pre­sente, a garan­tir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acre­di­ta­ram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia che­gando para com­prar (quase) tudo, quan­tas vezes em subs­ti­tui­ção de prin­cí­pios e de uma edu­ca­ção para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o tra­ba­lho, garante do orde­nado com que se com­pra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desem­prego… A vaqui­nha ema­gre­ceu, fene­ceu, secou.

Foi então que os pais fica­ram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um con­certo mas os seus reben­tos enchem Pavi­lhões Atlân­ti­cos e fes­ti­vais de música e bares e dis­co­te­cas onde não se entra à borla nem se con­some fiado.
Os pais à rasca dei­xa­ram de ir ao restaurante para pode­rem con­ti­nuar a pagar res­tau­rante aos filhos, num país onde uma festa de ani­ver­sá­rio de ado­les­cente que se preza é no res­tau­rante e vedada a pais.
São pais que con­tam os cên­ti­mos para pagar à rasca as con­tas da água e da luz e do resto e que abdi­cam dos seus peque­nos pra­ze­res para que os filhos não pres­cin­dam da inter­net de banda larga a alta velocidade, nem dos qual­quer­coi­sapho­nes ou pads, sem­pre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca que já não aguen­tam, que come­çam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensi­na­ram os filhos a ouvir e que por isso eles não supor­tam nem com­pre­en­dem, por­que eles têm direi­tos, por­que eles têm neces­si­da­des, por­que eles têm expec­ta­ti­vas, por­que lhes dis­se­ram que eles são muito bons e eles que­rem, e que­rem, que­rem o que já nin­guém lhes pode dar!

A soci­e­dade colhe assim hoje os fru­tos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma gera­ção de pais impo­ten­tes e frus­tra­dos.
Eis agora uma gera­ção jovem alta­mente qua­li­fi­cada que andou muito por esco­las e uni­ver­si­da­des mas que estu­dou pouco e que apren­deu e sabe na pro­por­ção do que estu­dou. Uma gera­ção que colec­ci­ona diplo­mas com que o país lhes ali­menta o ego insu­flado mas que são uma ilu­são, pois cor­res­pon­dem a pouco conhe­ci­mento teó­rico e a duvi­dosa capa­ci­dade ope­ra­ci­o­nal.
Eis uma gera­ção que vai a toda a parte mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma gera­ção que tem acesso a infor­ma­ção sem que isso sig­ni­fi­que que é infor­mada; uma gera­ção dotada de trô­pe­gas com­pe­tên­cias de lei­tura e inter­pre­ta­ção da rea­li­dade em que se insere.
Eis uma gera­ção habi­tu­ada a comu­ni­car por abre­vi­a­tu­ras e frus­trada por não poder abre­viar do mesmo modo o cami­nho para o sucesso. Uma gera­ção que deseja sal­tar as eta­pas da ascen­são social à mesma velo­ci­dade que quei­mou eta­pas de cres­ci­mento. Uma gera­ção que dis­tin­gue mal a dife­rença entre emprego e tra­ba­lho, ambi­ci­o­nando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abun­dam.
Eis uma gera­ção que, de repente, se aper­ce­beu que não manda no mundo como man­dou nos pais e que agora quer ditar regras à soci­e­dade como as foi ditando à escola, alar­ve­mente e sem manei­ras.
Eis uma gera­ção tão habi­tu­ada ao muito e ao supér­fluo que o pouco não lhe chega e o aces­só­rio se lhe tor­nou indis­pen­sá­vel.
Eis uma gera­ção con­su­mista, insa­ciá­vel e com­ple­ta­mente deso­ri­en­tada.
Eis uma gera­ção pre­pa­ra­di­nha para ser arras­tada, para ser­vir de mon­tada a quem é exí­mio na arte de caval­gar dema­go­gi­ca­mente sobre o deses­pero alheio.

Há talento e cul­tura e capa­ci­dade e com­pe­tên­cia e soli­da­ri­e­dade e inte­li­gên­cia nesta gera­ção?
Claro que há. Conheço uns bons e valen­tes punha­dos de exem­plos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encai­xam no retrato colec­tivo, pouco se iden­ti­fi­cam com os seus con­tem­po­râ­neos e nem são esses que se quei­xam assim (embora este­jam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impres­são de que, se alguns jovens mais infla­ma­dos pudes­sem, ati­ra­riam ao tapete os seus con­tem­po­râ­neos que tra­ba­lham bem, os que são empre­en­de­do­res, os que con­se­guem bons resul­ta­dos aca­dé­mi­cos, por­que, que inveja!, que cha­tice!, são beti­nhos, cro­mos que só estor­vam os outros (como se viu no último Prós e Con­tras) e, oh, injus­tiça!, já estão a ser capa­zes de abar­ba­tar bons orde­na­dos e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, esta­re­mos em vias de ser caça­dos à entrada dos nos­sos locais de tra­ba­lho, para dei­xar­mos livres os inve­ja­dos luga­res a que alguns acham ter direito e que pelos vis­tos — e a acre­di­tar no que ulti­ma­mente ouvi­mos de algu­mas almas - ocu­pa­mos injusta, ime­re­cida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos esta­mos à rasca.
Ape­sar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena des­tes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve ape­nas para demons­trar a minha firme con­vic­ção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa que não sou­be­mos for­mar nem edu­car, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre sol­teira por­que é de todos, e a soci­e­dade não con­se­gue, não quer, não pode assumi-la.
Curi­o­sa­mente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alar­mismo, de um exa­gero meu, de uma gene­ra­li­za­ção injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.

Mia Couto

Constatação #36

O Francisco Assis é o gémeo perdido do "Newman", a mim já não restam dúvidas!

O senhor que me desculpe, não se ofenda por estar assim a expôr um segredo de família mas olhe, mais tarde ou mais cedo, alguém havia de reparar, certo? Portanto, assuma-o de vez e mande cumprimentos ao maninho, dizendo-lhe da minha parte que eu acho que "ele vai muito bem", que "gosto muito de o ver trabalhar"...!

Frase do dia

‎"A verdadeira viagem da descoberta consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter olhos novos."
Marcel Proust