não é dada pelos ponteiros do relógio nem pela posição do sol... simplesmente sente-se... quando, de repente, faz sentido.
sexta-feira, julho 02, 2010
M... também de mimo
- Ó mãe, porque é que a tia T(jinha) não vem cá jantar hoje também?
- Porque tem que ir jantar a casa dela.
- Sabes, mãe, eu gosto muito da tia T(jinha)...
(ó para mim de sorriso parvo e derretido....)
Em contagem decrescente...
A "minha minha" prenda já está marcada. Num sítio diferente da cidade para sair da rotina. Depois... depois logo se vê.
quinta-feira, julho 01, 2010
Porque gosto de histórias, porque gosto de vacas
"A história de Glória, a vaca
Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes, uma barriga gorda, pêlos grossos e duros e os pés pesados.
Como não havia roupas à venda para o seu tamanho, tinha de ser ela mesma a fazê-las à mão. Fazia-as sem gosto nem grande jeito, e por isso, dentro daqueles vestidos, parecia ainda mais possante do que realmente era.
Tinha um andar atabalhoado e, quando falava, a voz era semelhante à de alguém a gritar para dentro de uma cisterna.
Glória não era modesta nem pensava tornar-se uma boa vaca leiteira como todas as vacas da sua idade. Não! Era ambiciosa e ansiava por qualquer coisa de grandioso!
Um engraçadinho qualquer, creio que a raposa, dissera-lhe que com uma voz tão bonita, devia estudar canto. Como tinha um pai rico que pagava tudo, teve aulas de música e, em seguida, deu ainda um concerto. Todas as vacas vieram ouvir Glória cantar. Começou com A violeta na orla do caminho e esta foi também a última canção que cantou. É que, se quando falava a voz parecia que saía de uma cisterna, ao cantar, soava como dois elefantes a trombetear num regador em simultâneo com uma serra a cortar metal. A assistência tapava os ouvidos, assobiava, gritava e batia com os pés para não ter de ouvir aquela voz horrível, ou então corria em debandada pelo prado onde o concerto estava a decorrer. Glória parou e começou a chorar. As vacas pensaram: “É agora que ela se vai tornar uma boa vaca-leiteira!”
Mas não! Teve aulas de dança e ainda quis tentar a sorte como bailarina! Quando se apresentou pela primeira vez, vieram ainda mais vacas vê-la dançar do que quando cantou. Glória apareceu no palco com uma saia tão grande que dava à vontade para fazer sete toalhas de mesa. Logo ao primeiro passo, tropeçou e caiu. As vacas na assistência riram-se, mas Glória não se deixou intimidar e deu um salto. Com o peso, as tábuas do palco partiram e ela caiu, ficando presa até à altura dos braços. Os espectadores riram-se, mas cinco fortes bois subiram ao palco e ajudaram-na a sair do buraco, onde ainda continuava a dançar. Novamente em cima do palco, Glória começou a dançar perigosamente perto da boca de cena. Desequilibrou-se e caiu, aterrando exactamente em cima dos músicos que estavam a tocar no fosso da orquestra. Quando voltou a erguer-se, com dificuldade, o contra-baixo estava partido, a trompete completamente espalmada, o tambor rebentado, o acordeão rasgado em dois e o maestro, com o susto, tinha engolido a batuta. Bem se pode imaginar as gargalhadas da assistência quando a bailarina desapareceu por detrás das cortinas.
Em consequência disto, Glória, muito envergonhada, emigrou para o país dos hipopótamos. Aí dançou para os pesados e grosseiros animais, e cantou ainda algumas das suas canções.
No dia seguinte lia-se no jornal:
A artista Glória, uma figurinha delicada e frágil, deu ontem um concerto onde também dançou. Nunca tinha sido possível no nosso país admirar uma voz tão clara e cristalina; nunca se tinha ouvido um canto tão belo. Dançou, melhor dizendo, flutuou com tal graciosidade que todas as nossas meninas-hipopótamos ficaram encantadas pela sua leveza. Esperemos que a artista Glória dance e cante mais vezes aqui entre nós, no país dos hipopótamos."
Projecto "Clube de Contadores de Histórias"
ac@contadoresdehistorias.com
Já em criança a vaca Glória era mais gorda do que as outras vacas. E isto foi-se acentuando à medida que crescia. Os lábios eram carnudos, o nariz largo, a cabeça tão grande como uma abóbora (por acaso era até maior) e, ainda por cima, tinha umas pernas fortes, uma barriga gorda, pêlos grossos e duros e os pés pesados.
Como não havia roupas à venda para o seu tamanho, tinha de ser ela mesma a fazê-las à mão. Fazia-as sem gosto nem grande jeito, e por isso, dentro daqueles vestidos, parecia ainda mais possante do que realmente era.
Tinha um andar atabalhoado e, quando falava, a voz era semelhante à de alguém a gritar para dentro de uma cisterna.
Glória não era modesta nem pensava tornar-se uma boa vaca leiteira como todas as vacas da sua idade. Não! Era ambiciosa e ansiava por qualquer coisa de grandioso!
Um engraçadinho qualquer, creio que a raposa, dissera-lhe que com uma voz tão bonita, devia estudar canto. Como tinha um pai rico que pagava tudo, teve aulas de música e, em seguida, deu ainda um concerto. Todas as vacas vieram ouvir Glória cantar. Começou com A violeta na orla do caminho e esta foi também a última canção que cantou. É que, se quando falava a voz parecia que saía de uma cisterna, ao cantar, soava como dois elefantes a trombetear num regador em simultâneo com uma serra a cortar metal. A assistência tapava os ouvidos, assobiava, gritava e batia com os pés para não ter de ouvir aquela voz horrível, ou então corria em debandada pelo prado onde o concerto estava a decorrer. Glória parou e começou a chorar. As vacas pensaram: “É agora que ela se vai tornar uma boa vaca-leiteira!”
Mas não! Teve aulas de dança e ainda quis tentar a sorte como bailarina! Quando se apresentou pela primeira vez, vieram ainda mais vacas vê-la dançar do que quando cantou. Glória apareceu no palco com uma saia tão grande que dava à vontade para fazer sete toalhas de mesa. Logo ao primeiro passo, tropeçou e caiu. As vacas na assistência riram-se, mas Glória não se deixou intimidar e deu um salto. Com o peso, as tábuas do palco partiram e ela caiu, ficando presa até à altura dos braços. Os espectadores riram-se, mas cinco fortes bois subiram ao palco e ajudaram-na a sair do buraco, onde ainda continuava a dançar. Novamente em cima do palco, Glória começou a dançar perigosamente perto da boca de cena. Desequilibrou-se e caiu, aterrando exactamente em cima dos músicos que estavam a tocar no fosso da orquestra. Quando voltou a erguer-se, com dificuldade, o contra-baixo estava partido, a trompete completamente espalmada, o tambor rebentado, o acordeão rasgado em dois e o maestro, com o susto, tinha engolido a batuta. Bem se pode imaginar as gargalhadas da assistência quando a bailarina desapareceu por detrás das cortinas.
Em consequência disto, Glória, muito envergonhada, emigrou para o país dos hipopótamos. Aí dançou para os pesados e grosseiros animais, e cantou ainda algumas das suas canções.
No dia seguinte lia-se no jornal:
A artista Glória, uma figurinha delicada e frágil, deu ontem um concerto onde também dançou. Nunca tinha sido possível no nosso país admirar uma voz tão clara e cristalina; nunca se tinha ouvido um canto tão belo. Dançou, melhor dizendo, flutuou com tal graciosidade que todas as nossas meninas-hipopótamos ficaram encantadas pela sua leveza. Esperemos que a artista Glória dance e cante mais vezes aqui entre nós, no país dos hipopótamos."
Projecto "Clube de Contadores de Histórias"
ac@contadoresdehistorias.com
quarta-feira, junho 30, 2010
terça-feira, junho 29, 2010
segunda-feira, junho 28, 2010
Alvo
E por falar em bitch slap caio em mim e vejo como é tão fácil apontar o dedo. Tão fácil... tão melhor apontar ao desbarato e poder distribuir culpas, responsabilidades por aí. Porque nos descansa e até traz uma certa sensação de paz, porque nos iliba, porque nos tira um peso de cima dos ombros. Mas a verdade acaba por vir ao de cima e acaba por se "chapar" mesmo no meio da nossa cara, mais tarde ou mais cedo. E assim vemos, à força do choque, que andámos a escamutear o que estava mesmo à nossa frente, a "tapar o sol com a peneira", como diz o povo, a evitar ver o que que temos que ver. Podemos, mesmo assim, voltar a deambular pelas nossas florestas, perdermo-nos outra vez nos seus caminhos e fugir da clareira onde o sol desenha um foco no chão e destaca a realidade nua e crua. Podemos, sim, voltar a emaranharmo-nos nos ramos e arbustos, o mais certo é que o façamos porque o cérebro é um malabarista quando trata de se proteger. Mas a visão da clareira fica connosco, já não há como fingir que não a vimos, que não estivemos lá. Já não há como ignorar que, afinal, o dedo aponta para nós.
sexta-feira, junho 25, 2010
Deve ser castigo...
Há determinadas pessoas com quem não gosto de assistir a jogos de futebol. Porque gritam histericamente, fazem comentários idiotas e despropositados, não percebem nada do assunto mas têm a mania que sabem... enfim, não gosto. Ironia das ironias... estão todos aqui ao pé de mim...
Café da manhã
Nos últimos tempos, não dispenso. Antes de me enfiar no carro e rumar ao resto do dia, tomo o meu café, sossegada, num espaço agradável ali bem perto.
Hoje, um vizinho de bairro e, aparentemente, habitué do mesmo estabelecimento, dos seus sessenta e muitos, resolve meter conversa comigo. Simpático, educado, sorridente, daquelas pessoas que fala com os outros por prazer, por puro prazer, porque gosta de gente, confiando que irá receber a simpatia que ele próprio emana. A conversa começa com o sol "e que chatice, vocês que trabalham e que esperam pelo fim de semana para poder ir à praia... e o sol resolve esconder-se justamente nesses dias". De repente, aproxima-se mais e diz: "Por favor, não me leve a mal, não quero de forma alguma ser indelicado mas... os seus olhos são mesmo muito bonitos! É por serem assim verdes, será isso?" Agradeço o elogio e respondo que são mais azuis e ele continua "ah, pois, muito bonitos mesmo... mas são seus? Mesmo seus? É que hoje em dia há quem coloque umas películas coloridas, não é?". Sim, são meus... sem "película"... :)
quinta-feira, junho 24, 2010
Proque eu não xou da Crinabelele....
F****! C**** do FB, que me ia matando do coração!!
Então não é que ontem, ao aderir a uma causa (sim, que eu sou pessoa de causas e manifestos e protestos e acho que vale a pena acreditar que este tipo de acções pode vir a influenciar alguma coisa), os tipos agradecem e tal e dizem para enviar para os amigos e sugerem uma doação. Até aí tudo bem... e depois continuam, dizendo qualquer coisa como "agora que se está a aproximar o seu aniversário, não quer aproveitar e em vez de receber uma prenda nossa, dar?" Muito bem... bonito, achei eu, para já lembraram-se, que queridos, e depois é verdade, sim senhor, que podemos utilizar o nosso aniversário para dar, é um dia tão bom como outro qualquer. Estive até tentada a clicar no botão... ATÉ QUE reparo nos algarismos que os senhores lá espetam e que, supostamente, representam a minha idade!!! Fiquei gelada, olhei várias vezes para me certificar que a hora tardia não me estava a nebular a visão e juro que até fiquei baralhada tal era a convicção com que o número três e companheiro maléfico pulavam à minha frente, gordinhos e brilhantes, enfeitados com velas e bolos de anos! "Ai, tu espera lá T... tu queres ver que andaste um ano inteiro enganada e que afinal a tua idade é esta?? Tu queres ver que fizeste mal as contas?? Pois que se o FB diz.... é porque deve ser, não é?" A coisa foi de tal ordem que dei por mim a ter necessidade de parar, pensar na idade da minha mãe e subtrair na máquina de calcular para confirmar que não estava louca...!
Então não é que ontem, ao aderir a uma causa (sim, que eu sou pessoa de causas e manifestos e protestos e acho que vale a pena acreditar que este tipo de acções pode vir a influenciar alguma coisa), os tipos agradecem e tal e dizem para enviar para os amigos e sugerem uma doação. Até aí tudo bem... e depois continuam, dizendo qualquer coisa como "agora que se está a aproximar o seu aniversário, não quer aproveitar e em vez de receber uma prenda nossa, dar?" Muito bem... bonito, achei eu, para já lembraram-se, que queridos, e depois é verdade, sim senhor, que podemos utilizar o nosso aniversário para dar, é um dia tão bom como outro qualquer. Estive até tentada a clicar no botão... ATÉ QUE reparo nos algarismos que os senhores lá espetam e que, supostamente, representam a minha idade!!! Fiquei gelada, olhei várias vezes para me certificar que a hora tardia não me estava a nebular a visão e juro que até fiquei baralhada tal era a convicção com que o número três e companheiro maléfico pulavam à minha frente, gordinhos e brilhantes, enfeitados com velas e bolos de anos! "Ai, tu espera lá T... tu queres ver que andaste um ano inteiro enganada e que afinal a tua idade é esta?? Tu queres ver que fizeste mal as contas?? Pois que se o FB diz.... é porque deve ser, não é?" A coisa foi de tal ordem que dei por mim a ter necessidade de parar, pensar na idade da minha mãe e subtrair na máquina de calcular para confirmar que não estava louca...!
A sério... isto não se faz! Eu sei que aquilo está programado para ler a informação que nós próprios disponibilizamos e depois dá os resultados automaticamente e, dizem, sem qualquer margem para erro porque é tudo zeros e uns e não há como enganar. Eu sei... mas desta vez é mentira, é mentira! O programa não está bom, enganaram-se redondamente, tenho a certeza e a minha mãezinha também! Ora, isto não se faz a uma pessoa que sofre dos nervos e que chama os seus gatos pelo nome de outros animais! Não se faz, é cruel, é desumano, é... é... bom, não é bonito!
E agora, pensando bem, acho que tenho aqui material para os levar à barra do tribunal... afinal, estamos perante danos emocionais mais que comprovados que podiam ter consequências gravíssimas porque senti perfeitamente as minhas mãos a tremer e os olhos a rolar em desatino! Certo... não houve testemunhas mas tenho a certeza que hoje os meus olhos ainda não voltaram ao lugar e eu estou com um ar perfeitamente alucinado portanto vou tirar uma foto com o telemóvel e assim eles vão ver com quantos paus se faz uma carruagem... err.. carroça... canoa!! Estúpidos...
quarta-feira, junho 23, 2010
Sala de espera
Observo. Não há nada mais para fazer. Os painéis luminosos vão mudando os números mas são todos diferentes, afinal qual é o meu? Respondem e concluo que é o mais atrasado...
Na televisão, o programa da manhã pergunta, em letras gordas: o que somos capazes de fazer para descobrir uma infidelidade? Felizmente está sem som...
De repente, chamam pelo meu nome. Querem que me inscreva, porque se enganaram e me fizeram andar às voltas entre edifícios e recepções e serviços e agora fazem-me passar à frente. Simpáticos. Enquanto espero no local indicado, ouço murmúrios nas minhas costas: vai passar à frente e foi a empregada que lhe disse! Uns são filhos, outros são enteados! Apetece-me virar e esclarecer a legitimidade da situação mas não o faço. Para quê? Estas pessoas não me dizem nada, não lhes devo nada e como hoje estou virada para dentro, o exterior não me afecta. Ainda bem senão acho que poderia vir a ser uma mistura explosiva. Inscrevo-me e a funcionária olha para mim de forma curiosa, quase como se quisesse perceber o que está por trás da informação que lhe dou. Nome, idade, estado civil, se já cá esteve com este "doutor"... De todas as vezes que respondo, olha-me nos olhos, inquisidora. Curioso.
Volto a sentar-me, de novo à espera de ouvir o meu nome. E aqui e agora, sou assim chamada à vida por vozes estranhas. Dizem o meu nome mas não sabem nada dele. No entanto, é comigo que falam, é o meu nome que pronunciam. Mas é só um nome, afinal. Observo e acho o local agradável, apesar da voz roufenha no altifalante, das conversas cruzadas, do barulho das chávenas de café no bar, lá na outra ponta. Observo e dou-me ao trabalho de tentar imaginar o que traz cada uma destas pessoas aqui. Numas, os males são evidentes. As outras, são parecidas comigo. Observam, esperam, pensam na vida e nada no seu rosto denuncia os seus propósitos.
Devia ter trazido um livro. Talvez ele me distraísse o suficiente para não me lembrar da primeira vez que cá estive. Era mais nova mas, acima de tudo, era mais eu. E aqui estive, com a "minha pessoa". Lembro-me do que dissémos, da sua expressão, do sorriso forçado mas bondoso de quem está preocupado mas não quer que se veja. Lembro-me do sorriso seguinte, o franco, porque afinal não havia nada com que se preocupar. Lembro-me da viagem de carro até aqui, da aventura que era metermo-nos em sítios onde nunca tinhamos estado e da satisfação de os encontrar à primeira. Mais algo que herdei...
Espero. Observo. Escrevo. Ouço a voz fanhosa e pontual para não perder a vez. Ainda não é desta.
Reparo que, afinal, talvez não venha fazer o que julgava. Percebi mal, pensei que passássemos directamente à acção visto haver já indicação nesse sentido mas, aparentemente, este "doutor" também tem que dar o seu aval por cima do aval do outro. Enfim... Sinto que vou perder tempo para ouvir o que já ouvi mas com uma voz diferente. Procedimentos, diriam. Certo. Será que ninguém consegue perceber que há aqui passos desnecessários?? Para quê dois carimbos, um por cima do outro? Pode ser que esteja enganada, pode ser. A ver vamos, quando chamarem o meu nome, sem saber nada dele.
O quadro de cortiça avisa que devemos tratar bem as pessoas com epilepsia porque podemos nós, um dia, ser também epilépticos. Bonito. Trata bem para depois te tratarem bem a ti, se precisares, e não trata bem porque sim, porque somos todos "patetas no mesmo autocarro".
De repente, passa o "doutor", o outro, o do primeiro carimbo. Olha mas não me vê. Se for como eu, que não fixo caras à primeira, nem sabe quem eu sou. E eu hoje sou só mais uma alminha no meio de tantas, do meio dos murmúrios e conversas disto e daquilo, perco-me no zumbido de fundo.
Algures, no meio da confusão sonora, lá ao longe, um som que parece de uma caixa de música, daquelas antigas com a bailarinha a rodar. Não percebo de onde vem mas a verdade é que me puxa daqui para um outro local, para uma loja de antiguidades, cercada de objectos pesados e com uma aura mística de pó e sol velado, que parece iluminar-se no momento em que a caixa é aberta. Giro.
E agora, finalmente, a voz fanhosa acorda-me a chamar por mim. E agora, a indicação do gabinete e o "doutor" a cumprimentar e a dizer-me que aguarde enquanto atende quem está à minha frente. Afável, sorridente, a fazer-me lembrar alguém que conheço. Agradeço e sento-me mais uma vez. Aqui, o barulho da sala de espera chega como de dentro de um poço, lá longe, abafado. Em compensação, o altifalante ainda se ouve mais.
Entro. Dou a carta. Pede para ver e "carimba por cima". Ou melhor, confirma o diagnóstico.
- Vamos lá então marcar... dia X pode ser para si?
- Pois, por acaso até não... é que faço anos, sabe, não me dava muito jeito...
- Tem toda a razão! Era o que mais faltava passar o dia de anos enfiada num hospital! Muito bem, então dia Y, pode ser?
- Pode, está óptimo.
- Bom, então diga lá: tem doenças? Toma algum medicamento?
- Sim, por acaso, tomo o S******.
(Silêncio... Expressão de estranheza...)
- Com esses olhos...? Tsss, tsss, tsss...
Bom, mas então está combinado. Venha, bem almoçada, e só precisa de aparecer e trazer boa disposição! Ah! E um livrinho já agora, que isto pode ser um bocadinho aborrecido. E se quiser trazer alguém para lhe segurar a mão...
- Não creio que vá ser preciso.
- Ora assim é que se fala!! Até porque eu também não deixava entrar!! Ahahahahahah!!!
(é impressão minha ou eu tenho o poder de só atrair médicos sui generis?)
Felinos do Entroncamento
Tenho uma gata/tartaruga e um gato/suricata. Quem é que não é normal aqui? Eles ou eu?
terça-feira, junho 22, 2010
"Drafts"
É sempre assim. Fico com uma espécie de azia. Mas não daquela que acida o estômago, as entranhas afectadas são outras. E, se a mais comum provoca desconforto e esgares de má disposição física, esta empalicede e baixa os olhos e esmifra o coração iludido porque acha que não pode encolher mais e mesmo assim encolhe. É sempre assim e talvez assim seja para sempre, talvez seja agora parte do meu "show", como dizia a música, talvez se tenha tornado numa característica daquelas que já não são defeito, são feitio. Não gostaria mas, provavelmente, não há como lutar contra isso. Porque o caminho que percorremos tem as suas tintas frescas e quem lá passa acaba por ser por elas manchado. Falava nisso, no outro dia, de como olho e vejo que não há como apagar os borrões que eu antes não tinha e agora tenho. Diz que são de tinta permanente e que já fazem parte do meu retrato, entranharam na tela e secaram, e que não há mestre que os possa limpar.
Pergunto-me como a lucidez parece tanta para umas coisas e tão pouca para outras... e não só a minha...
Mas acabámos por concluir que as palavras têm um peso muito maior do que gostamos de lhes atribuir. E, ao contrário do que poderia parecer mais lógico, aquelas que não foram ditas e aquelas que não foram ouvidas são as que pesam mais. As que não foram ditas carregam nos ombros impaciência, contenção forçada e, amargas de frustração, acabam por apodrecer na sala de espera. Mas não desaparecem, ficam ali, a ocupar lugar, inúteis, estéreis, peso morto e ácido, água estagnada das coisas que deviam ter sido e nunca foram. E as outras, as que não foram ouvidas, deixam o seu espaço, o que lhes estava reservado, oco, deserto, sem vida, ecoando e não deixando esquecer a sua ausência, os pedaços que faltam. Mas é tarde demais, muito tarde. O mundo já girou muito e passou o tempo delas, não há como voltar atrás. Assim ficarão, portanto, as presentes e as ausentes, a magoar com a sua presença e com a sua ausência. E a fazer parte do meu "show"...
E, de novo, as voltas que parecem não cessar. Acho que o bilhete que comprei não era para tanto... enganaram-se, talvez, a montanha russa continua a funcionar, não há ninguém para parar o mecanismo e eu não posso saltar do sítio onde estou. Ainda é muito alto... Diriam "então, já que é assim, aproveita a viagem!". Mas já me apetece voltar para casa, sabem? Já estou cansada, tonta, já chega de rodopios, já chega... quero voltar para o meu canto, seja ele qual for, mas que tenha a tabuleta a dizer "Meu" e pronto, onde esteja o meu sofá, os meus bichos, o meu chá e os meus livros e... amor, muito amor. Para dar e receber e para adormecer nos seus braços. Onde cheire a bolos acabados de sair do forno, onde haja risos e claridade e música. Onde eu esteja, mas mesmo eu, eu a sério, eu completa.
Deparo-me com grandes disparidades no que diz respeito à justiça. A justiça que falha, a justiça que não foi feita, que não me foi feita. E quanto a isso, resta-me aceitar que ela é apenas a "minha" injustiça, poderá não ser de mais ninguém, poderá até ser catalogada de "justiça", afinal. Estranho mundo, este, estranho mundo, o meu.
Olho para trás e comparo. E vejo um "antes" e um "depois" mas também vejo um "depois de tudo isso", que é onde estou agora. Olho para trás e sorrio ao mesmo tempo que choro. Olho para trás e não me reconheço mas também me sinto eu. Olho agora e estranho o resultado da fusão. Olho agora e espero que ainda esteja a ver um rascunho, que a versão final ainda não esteja pronta, que ainda haja mais para escrever.
Miragem
Fui cortar o cabelo. Lá estava eu, com uma tesoura aparentemente descontrolada a esvoaçar à minha volta, e nisto dou conta de uma coisa estranhíssima... reflectidas no espelho estavam as costas da t-shirt de uma outra cabeleireira e diziam... "Caçarola do Fundão"! Pisquei os olhos, uma e outra vez, que estupidez uma cabeleireira (ainda por cima, a dona!) ter uma t-shirt daquelas em vez de uma de qualquer marca de shampô... olhei outra vez e outra vez e finalmente percebi. O que dizia era "Coloração do Futuro" e eu ainda não tinha almoçado...
segunda-feira, junho 21, 2010
Solstício
O mundo gira e traz mais uma estação, a do sol e calor, a do mar e dos cheiros quentes, a do alcatrão a derreter para quem fica nas cidades, a dos lugares de estacionamento a oferecer-se de bandeja, a dos gelados e petiscos ao ar livre. E hoje também, lá mais para sul, a "barrigada" de sete. Dizem que é número mágico, talvez até tenha sido o deus Sol a dar uma mãozinha... E as coincidências que dizem que não existem. Gosto deste "dizem". Quem diz? "Eles". Eles quem? Não interessa. "Eles", essa entidade sem rosto, com as costas larguíssimas... mas enfim, dizem então que não há coincidências, que nada acontece por acaso, que tudo tem uma razão de ser. Pergunto-me então qual é a razão de dois escritores portugueses em particular terem ido para o outro mundo quase de seguida. E pergunto porque são esses dois, justamente esses dois. Talvez só eu veja a ironia, talvez, a curiosidade do facto, talvez só eu. Mas tenho que me dar por contente mesmo assim. Nos dias que correm, a minha mente estar aguçada o suficiente para me aperceber, já é muito bom, mesmo que esteja sozinha nas suas deambulações. Mas falta-me agora a outra parte: porquê? Se não há coincidências, se tudo tem uma razão de ser, então qual é ela? Gosto de pensar assim, que nada acontece por acaso porque desta forma sentimos como mais legítimo achar que não andamos aqui por ver andar os outros, que há sentido no mundo e nas ocorrências e eu gosto de coisas com sentido. Mas, lá está, falta-me que "eles" me digam afinal o que está por trás porque eu, comum e banal mortal, não consigo alcançar...
Hoje dá-se a maior diferença na duração do dia e da noite e esta constatação remete-me para tempos idos e rituais pagãos e mulheres de roupa leve e branca a fazer esvoaçar gestos carregados de simbolismo e de comunhão com os astros e com a natureza. Gosto. Talvez seja a minha porção celta que, nestes dias, acorda e me faz viajar. Sinto-a latejar. Acho que me apetece criar um Stonehenge só meu e dá-lo como desculpa para sair daqui e ir adorar o Sol. E, já agora, deixar que ele me adore também...
Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta em mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
Mia Couto
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta em mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
Mia Couto
sexta-feira, junho 18, 2010
quinta-feira, junho 17, 2010
Metade
Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também.
Ferreira Gullar
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também.
Ferreira Gullar
quarta-feira, junho 16, 2010
"Roubado"...
... daqui.
"Olho em volta e assisto a um fenómeno recorrente: pessoas solteiras ou divorciadas encaixam com a primeira pessoa que aparece, desde que esta se mostre disponível para se dedicar a elas. É uma espécie de jogo das cadeiras, a ver quem é que se aguenta mais tempo sem ficar de fora. Hoje em dia, estar só, no sentido de não ter uma relação amorosa, ainda é um handicap; é como se uma pessoa tivesse perdido a sensibilidade nos dedos de uma mão por causa de um desastre de carro ou a Natureza a tivesse privado de três quartos da audição.
Não ter alguém acaba por funcionar como uma espécie de estigma de solidão e de abandono, qual carta transviada de um baralho extinto. E, com o tempo, quase se assemelha a uma doença crónica. Finalmente, quando alguém aparece, amigos e família rejubilam porque ter alguém representa uma conquista, uma vitória, um troféu que se exibe em reuniões familiares e eventos sociais.
É CLARO que é óptimo ter alguém, mas não por estes motivos. Não há nada melhor do que acordar todos os dias de manhã, olhar para quem ainda dorme na almofada ao lado e sentir aquele conforto de sabermos que amamos alguém que também nos ama.
E quando chega o fim do dia, depois do trabalho, do trânsito, dos imprevistos e de todas os pequenos nadas que nos carregam a existência, é bom ouvir o ruído tranquilizador da chave à porta. Essa chave significa que o nosso alguém também teve um dia cheio de pequenos dramas quotidianos e que, no regresso a casa, tem tanta vontade de descansar da vida lá fora como nós.
Mas isso só é mesmo bom se quem estiver ao nosso lado não for uma solução de recurso, uma substituição preguiçosa, uma segunda escolha. Não basta que seja boa pessoa, que vele por nós, que nos faça companhia e nos troque as lâmpadas e a água ao cão. É preciso mais e melhor.
É preciso que esse alguém seja quase tudo na nossa vida e não apenas uma presença passageira que nos distrai mas não nos alimenta, como uma comédia romântica ou uma casa de Verão alugada ao ano. É preciso que o conforto e o prazer se misturem nas doses certas: só prazer, cansa. Só conforto, entedia.
As SEGUNDAS escolhas podem trazer-nos a ilusão da segurança, mas se o coração, a cabeça e o estômago não estão lá por inteiro, mais tarde ou mais cedo, a miragem ganhará contornos daquilo que é: a projecção torpe de uma quimera sonhada. E quem escolhe por defeito – por medo da solidão, por pensar que não merece melhor, porque não quer sentir-se a tal carta do baralho extinto –, mais cedo ou mais tarde, será obrigado a enfrentar os seus próprios fantasmas.
Não acredito em segundas escolhas, nem acredito que elas nos tragam a verdadeira paz. Uma paz conformada não resiste muito tempo ao desafio de uma nova guerra. E, para quem não sabe estar só, o melhor é ir aprendendo. Mais vale só do que acompanhado por um alguém qualquer que tanto podia estar ao nosso lado como ao lado de outro alguém.
Refugo, só nas lojas de velharias. "
Figura
- Então mas repita lá o seu apelido.
- C*****.
- Ah! Muito bem... é espanhol, sabe? É sim, senhora. E a menina T(inha) sabia que tem uma ilha?
- Não...
- Ah, pois é! A ilha Canela, é sua, pois está claro! A ilha Canela fica ali para o sul de Espanha e é banhada pelo rio Gua... Gua... ?
- Guadiana...?
- Nem mais! É uma pequena ilha que só se liga por terra por uma ponte. Também há outra, mais a Oriente, que é a ilha Cristina. E essa foi formada por causa do terramoto de mil setecentos e...? Mil setecentos e... diga lá?
- Mil setecentos e cinquenta e cinco...
- Exactamente!! Chamam-lhe o terramoto de Lisboa mas que afectou toda a Península Ibérica e que, na verdade, foi mais um maremoto, como sabe... daí ter formado justamente uma ilha!
- Pois...
- Mas já viu aquela senhora que saiu daqui? É uma chatice, quase cega... a minha mãe sempre me disse: Augustinho (que é o meu nome), tu olha mas vê! Olha com olhos de ver! E eu aprendi muito bem a lição e agora vi... vi que fui levar a senhora ao elevador e a auxiliar saiu lá do coio (sabe o que é o "coio"? não sabe??? devia saber! "coio" é um ajuntamento de pessoas...) bom, e saiu lá do coio, viu-nos e voltou para trás! Ora, era a obrigação dela acompanhar a senhora, não minha! Se eu a chamasse daqui ela tinha que vir e fazer o seu trabalho e pronto! Mas, enfim, como não me faz mal nenhum levantar o "cu" da cadeira... e é por essas e por outras que eu tenho 71 anos e esta invejável forma física!
Bem... mas vamos lá ver esses sinais que é o que traz a menina T(inha) aqui...
(Sim... era uma consulta de dermatologia...)
terça-feira, junho 15, 2010
O jogo e a pérola
"Estes jogadores da Costa do Marfim são todos encorpados, parecem inchados... devem encher-se de estrogénios, é o que é!"
POR-TU-GAL! POR-TU-GAL!
Caraças! Já me está a dar nervoso miudinho!! Está decidido, até ao fim do jogo não trabalho! É que não tenho saúde...
Quero!
O sono suaviza-me mas as manhãs trazem de volta a dureza. Fico-me ali, a digeri-la, olhos perdidos no tecto, coração murcho. Mas a urgência do dia ataca e a partir daí não há tempo para molezas, corre, corre, há o que fazer. Vai e vem entre a escolha da roupa e a torrada, pensamentos voam e maceram enquanto o óleo com cheiro a aloé vera penetra no corpo e a cama tem as suas "orelhas" devidamente puxadas. E os outros meus seres acompanham-me com as suas exigências e brincadeiras, com a sua vida à volta dos meus pés. O chá verde à janela leva-me para outros tempos e reforça os meus desejos.
Quero ser feliz. Quero sentir o peito cheio, quero que o coração murcho se encha como balão outra vez e brilhe, luzidio e vermelho como já foi e bata, bata muito, bata até se fazer ouvir. Quero enterrar os pés na areia e deixar que o sol me doure. Quero estar em qualquer lugar e sentir que não quero estar em mais lugar nenhum. Quero andar por cima de muros. Quero-me sentir completa, quero pertencer a mim e a mais alguém. Quero mergulhar no mar azul, azul e fingir que faço natação sincronizada enquanto engulo pirolitos e rio. Quero dar as mãos e sentir a pele macia e o sangue a ferver, quero encostar a cabeça e não me importar com o silêncio porque não é preciso falar. Quero viajar e ver outros mundos e outras pessoas e aprender mais do que sei. Quero ler e poder falar sobre o livro que li. Quero rir, rir com gosto, sem freio, rir com a barriga a doer. Quero ir ao cinema e sentir-me dentro do filme de tão boas que as interpretações são. Quero sentir que, ao fim do dia, há uma vida à minha espera, a minha vida. Quero os meus amigos, a minha rede em cada minuto do meu dia, mesmo que estejam longe. Quero soltar-me de todas as armaduras, correntes, portas e cadeados e abrir as muralhas e deixar entrar a luz e fervilhação de quem sente. Quero sentir muito, sentir forte, sentir até parecer que vou sufocar e morrer de felicidade. Quero arrepiar-me cá dentro ou sentir o estômago a arder, a energia arrebatadora das coisas boas a dominar-me os sentidos. Quero ver fogo de artifício com mil cores e mil sons a cair na minha cabeça e sentir que o ar me falta e me rasga um sorriso na cara sem eu dar conta, um sorriso que vem de dentro. Quero ser a escolha, A escolha. Quero ser única, inigualável, imprescindível. Quero, quero, quero. Quero mais. Quero tudo.
segunda-feira, junho 14, 2010
Resolução de ano novo... já a meio...!
"Tenho que acordar mais cedo, tenho que acordar mais cedo, tenho que acordar mais cedo...!!"
Porque acredito que "deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer?". Não! Porque a partir das cinco da tarde o meu esforço de contenção começa a ser difícil de disfarçar. Sim, posso sempre dizer que sou "só ligeiramente epiléptica" e que é por isso que espumo da boca e tenho que me agarrar à cadeira com todas as forças, (enquanto finjo um sorriso mais ou menos simpático) quando ouço determinadas coisas... mas é chato...
Frase do dia
"The only people you need in your life are the ones that need you in theirs, so stop making people a priority when they make you an option."
Anónimo
Anónimo
domingo, junho 13, 2010
Para começar bem a semana...
Something in your mind goes weary, goes
Turning itself into a big ball of snow
And it just rolls, rolls, growing stronger
As it goes, goes down the valley
Of the cold, cold lonely mountain
That hides all your secrets away from the surface
There, where, all your feelings show
Where you stand on your own
I'll meet you under a shadow of an orange tree
He never ever really loved you
He never ever really cared, cared
So just go, just turn around and hold me, just hold me
Cause I, I've been waiting forever, forever
Something in your mind goes weary, goes
Turning itself into a big ball of snow
And it just rolls, rolls growing stronger
As it goes, goes down the valley
Of the cold, cold lonely mountain
That hides all your secrets away from the surface
There, where, all your feelings show
Where you stand on your own
I'll take you dancing
We'll climb and we'll sit on the top of an orange tree
Something in my heart goes boom, boom, boom
And all I see is you, you, you
Something in my heart goes boom, boom, boom
There's nothing I can do (light shines for you)
sexta-feira, junho 11, 2010
Voz
De que estás à espera? De que estás à espera?? As provas estão dadas, a vida encarregou-se disso, e estão aqui à tua frente. Haverá mais o que provar? Claro que sim, na vida há sempre mais. Tu hás-de provar mais a ti própria, aos outros, ao destino, tu hás-de sentir quando for a altura certa e ela há-de chegar. Até lá, não esperes, vive. E aprende a lidar com a mágoa, com a desilusão, com o desgosto porque agora eles fazem parte de ti de uma forma como nunca tinham feito antes. Têm um lado bom, eles também, que vai ajudar a construir o que tu serás. O ser humano é imperfeito, muito imperfeito. O ser humano é primário e como tal age primariamente. Tu também és assim. E odeias isso, não é? Mas não esperes mais, não. Não há mais nada para esperar. Constrói um mundo novo, teu, constrói de raiz e polvilha as suas bases com o açúcar que sobrou do outro, mesmo que seja pouco e vive, vive sem esperar nada. Esquece os navegadores que te circundam, sai daí, navega por outras águas, na crista de outras ondas e torna-as tuas. De que estás à espera? Pergunta-te: de que estás à espera?
quinta-feira, junho 10, 2010
Frase do dia
"Evitar problemas que precisas de enfrentar é evitar a vida que precisas de viver."
"Roubada" a R. T.
"Roubada" a R. T.
Acima e a baixo
Toca mas não me mexo. Os olhos pesam, não me apetece, o cinzento "acinzenta-me", fico por uns largos minutos virada para dentro. Pergunto-me em que fase estarei afinal. Porque os pensamentos não me largam e cansam-me e obrigam-me a descansar antes de me pôr de pé. Estou a "elaborá-los" diz ela. Estou a macerá-los.
A noite fez-me embrenhar nas ruelas coloridas e enfeitadas de Alfama, para voltar a agarrar a tradição que me tem escapado e que não quero que me escape. O "sardine late supper" recebeu-nos com chuva mas não desistindo, lá nos encostámos uns aos outros, a receber as pingas grossas, continuando a comer o que estava seco e a comentar como a sardinha solitária agora boiava no prato. Mas a cor e a luz e a música continuavam a rodear-nos e depois, bom, depois continuámos como se nada se tivesse passado porque estavámos ali e era ali que queriamos estar.
Hoje, e porque o gato B. teima em fazer asneiras, o edredon que não coube na máquina lá foi esfregado e pendurado e pesava toneladas... pensei em desistir, a dada altura, fraca de braços como sou, mas respirei fundo, uma e outra vez, e fiz o que tinha a fazer porque não há-de ser um simples edredon, mesmo conjungando esforços com o estendal baloiçante, que me vai derrubar, ah, pois não!
E hoje, dia de moer e remoer, de silêncio, de dor de cabeça porque dormi demais, dia de me interrogar sobre o que dirias se me visses, o que me dirias hoje, se aqui estivesses.
quarta-feira, junho 09, 2010
Vuvuzelando à minha maneira
Contactos com empresa que ficou de nos apresentar uma proposta. Têm algumas dúvidas, gostavam de marcar uma reunião para as esclarecer, sim, meus senhores, concerteza, então proponho dia 15 às 15.30h. Dizem que sim, mandam compromisso e depois.... anulam compromisso. Logo a seguir, um email a explicar que agradecem muito mas que "alguém" lhes lembrou que a essa hora dá-se o primeiro jogo de Portugal no Mundial e que então sugerem outra data, para não "azarar"...
Fiquei a olhar. Li, reli, pisquei os olhos umas quantas vezes, não queria bem acreditar no que estava a ver. "Podiam ter inventado outra treta qualquer, não??". Mas depois pensei, caramba, quem diz a verdade não merece castigo e gostei da atitude descontraída dos tipos. Além disso... é a Selecção!! E se o fulano tem razão e dá mesmo azar ter reuniões à hora dos jogos?? Nunca me perdoaria...
Portanto, reunião desmarcada...
Agora parem, respirem fundo, acalmem-se antes de começar a fazer circular pela net que "Uma certa pessoa, pertencente a um organismo público, desmarcou uma reunião de trabalho por causa de um jogo de futebol!! É assim que o nosso País anda, é por estas e por outras que não vamos a lado nenhum, que isto anda tudo atrasado, é por causa de gente como esta que depois "eles" nos aumentam os impostos, bandalhos!, filhos de uma égua!, essa maralha que trabalha para o sector público devia ser toda chicoteada em praça pública!!". Calma... muita calma, não se precipitem. A reunião foi... antecipada! ;)
Fiquei a olhar. Li, reli, pisquei os olhos umas quantas vezes, não queria bem acreditar no que estava a ver. "Podiam ter inventado outra treta qualquer, não??". Mas depois pensei, caramba, quem diz a verdade não merece castigo e gostei da atitude descontraída dos tipos. Além disso... é a Selecção!! E se o fulano tem razão e dá mesmo azar ter reuniões à hora dos jogos?? Nunca me perdoaria...
Portanto, reunião desmarcada...
Agora parem, respirem fundo, acalmem-se antes de começar a fazer circular pela net que "Uma certa pessoa, pertencente a um organismo público, desmarcou uma reunião de trabalho por causa de um jogo de futebol!! É assim que o nosso País anda, é por estas e por outras que não vamos a lado nenhum, que isto anda tudo atrasado, é por causa de gente como esta que depois "eles" nos aumentam os impostos, bandalhos!, filhos de uma égua!, essa maralha que trabalha para o sector público devia ser toda chicoteada em praça pública!!". Calma... muita calma, não se precipitem. A reunião foi... antecipada! ;)
POR-TU-GAL!! POR-TU-GAL! FOOOMM, FOOOOOMMMM....!!!
Raiz de orvalho
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram
Quem me dera acontecer
essa morte
de que se não morre
e para outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada
De quando em quando
me perco
na procura da raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco das mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens
Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância
Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno
Mia Couto
Agosto 1982
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram
Quem me dera acontecer
essa morte
de que se não morre
e para outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada
De quando em quando
me perco
na procura da raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco das mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens
Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância
Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno
Mia Couto
Agosto 1982
terça-feira, junho 08, 2010
Simbiose
Pronto, é da minha natureza, não há nada a fazer. Estou aqui, contigo, a sentir-te sofrer, a sentir a tristeza e o medo nas tuas palavras. E esse medo e essa tristeza passam para mim porque eu sou, de facto, uma esponja do que me rodeia e porque a esponja que sou não fica nunca indiferente ao sofrimento de quem me é mais querido. Sinto, como se fosse comigo, sinto e retenho o timbre da tua voz nos meus ouvidos e sei o que está para além dele. Sei, conheço-o muito bem. Que mais te posso dizer? Estou aqui, para o que quiseres, estou aqui porque tu és também parte de mim, estou aqui porque entre nós não poderia ser de outra maneira.
segunda-feira, junho 07, 2010
domingo, junho 06, 2010
Sem palavras
Acho que não agradeci o suficiente, acho que nunca vai ser o suficiente. Àqueles que me acharam digna e especial o suficiente para poder usufruir da sua ajuda, àqueles que não me deixaram cair, àqueles que sairam de si por mim, àqueles que me ouviram vezes sem conta, que ampararam as minhas muitas lágrimas, àqueles que me aplacaram os gritos de dor, àqueles que nunca desistiram de mim mesmo quando eu desistia, àqueles que suportaram o meu silêncio sem dizer uma palavra, àqueles que deram e deram e deram muitas vezes sem receber nada em troca, àqueles que se mantiveram aqui, de pedra e cal, e me seguraram com as suas mãos ajudando-me a atravessar o deserto, àqueles que ainda hoje estão dispostos a fazer tudo de novo se assim for preciso... a eles, do cantinho do meu ser e com a plena noção de que terei que viver muitas mais vidas para me tornar num décimo do que eles são, a eles, digo e repito: não tenho palavras, acho que nunca vou ter.
"Ainda..?"
Ainda. Serei uma pessoa estranha? A maioria das pessoas diz que não. Eu... já não sei. E em conversa descobrimos que tenho uma corda com determinado comprimento, que está presa, que não estica. E eu estou na outra ponta, aos puxões, mas com consciência de que ela não é suficiente comprida para chegar onde deve, onde eu quero, que para isso ela tem que se desprender e que eu ainda não tenho força para o fazer. Mas vou tentando, não deixo de tentar. Puxo para andar em frente e para não ceder à força nas minhas costas e não me deixar puxar para trás. Mas, enquanto isso, fico no meio, nem atrás nem à frente, fico travada na terra de ninguém. E a energia que emprego na vontade de a soltar volta-se contra mim. O nó vai-se apertando cada vez mais, sufoca-me, aperta, aperta e fecha-me, comprime-me, tira-me o ar e bloqueia a vida que corre nas veias. Na terra de ninguém... travada em movimento e sentimentos, não me sentindo pertencer a lugar nenhum.
sexta-feira, junho 04, 2010
E a vida a atravessar-se pelo meio do post...
Pronto, não foi bem mas foi quase. Tudo isto porque peco em originalidade, eu e todos os lisboetas, que basta sentir a temperatura a subir e tem tudo a mesma brilhante ideia... não é que não haja lugar para todos, certamente que há, o problema é mesmo lá chegar... portanto, sim, peixinho mas sem as outras mariquices todas, pronto. Mas estava bom, estava sim senhor.
E ontem ouvi umas quantas vezes, e com mais atenção, umas vuvuzelas ao longe (não longe o suficiente, infelizmente). Percebi porque me irritam: serei só eu ou há mais alguém a pensar que aquele som "vai buscar" parecenças com eventuais problemas intestinais de um qualquer animal de grande porte, tipo elefante ou assim? Será essa a inspiração? África do Sul lembra selva que lembra bichos grandes que lembra sons associados aos mesmos... ? Será? É o que me parece, descobri eu, e não sei se gosto que seja este o sonido de apoio à nossa selecção. Quanto muito, o sonido para os receber quando ficarem pelo caminho, isso sim. Será que a Galp já estava a pensar nisso? Muito à frente...
E eu a pensar que hoje a malta fazia "ponte" e eu ia ter um dia descansadinho e, acima de tudo, silencioso... think again, think again, está cá tudo que é uma beleza!
Mas amanhã é fim de semana e o alento já é outro. E a cidade, a minha cidade, já começou a festejar: santos, arraiais, sardinha, bailaricos, manjericos e caldo verde! Gosto, gosto muito, quero ver se aproveito porque o ano passado... bom, o ano passado não foi bom em muitos aspectos e este hábito, este gosto, também não escapou à "mortandade"...
E hoje olho para trás. Tenho olhado muito para trás nos últimos tempos, não para lá voltar mas para fazer comparações...
E de repente, páro de escrever por uns instantes, disperso-me por outras lides e fico sem palavras, sem palavras. Um dos meus escritores preferidos, de quem acho que li quase tudo, morreu ontem. Não sabia e fiquei sem palavras. Fiz mais pesquisas para ter a certeza, podia ser alguém com um nome parecido, podia ser engano. Mas não é. Mais uma vez, o cancro levou a melhor. E de repente, na minha mente, a minha imagem numa qualquer livraria sempre à procura do seu romance mais recente, invadiu-me de tristeza. Porque era da minha "família", porque fazia parte de mim, porque os seus muitos livros que li estão cá dentro e eu e ele falávamos uma mesma língua, "entendiamo-nos". Porque agora já não vou ter um último romance para procurar... Estou mais pobre, o país está mais pobre, o mundo está mais pobre. Isto é uma m****...
quinta-feira, junho 03, 2010
Nouvelle cuisine
Hoje, a ementa deverá ser: peixinho grelhado acompanhado com legumes cozidos e espuma do mar e, para sobremesa, sol com crocante de brisa marítima.
quarta-feira, junho 02, 2010
Números
Doze, cinco, sete. Onze, três, dois. E às vezes um, um, um. Depende dos dias e não existe uma regra. Tento entender, pesquisar pormenores mas raramente o consigo. Escapa-me, utrapassa-me e como tudo o que não entendo, faz-me pensar em hipóteses, em explicações. Sete, quatro, seis e por aí adiante. Porquê? Porque não? De onde vêm? O que são? Porque foi hoje assim? E porque é que ontem foi diferente? O que querem dizer? O que querem dizer-me? Demasiadas perguntas quando o que devia fazer era ignorá-las, não as fazer, aceitar o que vejo e não deixar que o que está à minha frente me levante dúvidas. Não por saber as respostas mas por simplesmente não me interessarem nem umas, nem outras. Não deixar que façam nada, absolutamente nada. Serem indiferentes, serem apenas o que são e mais nada. Talvez um dia. Já foi pior, já me povoaram os sonhos, já me tiraram o fôlego, já me viciaram na sede de entender. Agora não, são mais inóquas embora ainda não totalmente. Talvez um dia, certamente um dia.
E isto... e aquilo...
Dia mais fresco para aliviar a caloraça de ontem que até nos fazia pingar dentro de casa. Nem o champanhe aliviou! (Se calhar, até foi ele o grande culpado...) E a agitação, correria de miúdos e o meu "afilhado" a mostrar a sua raça. Uma peste gira, é o que ele é. E eu babada porque gosto de miúdos espertos e agitados, porque ele até se parece um bocadinho comigo e tudo... ;). E a baby M. que há-de ser muito feliz, certamente, no que depender de nós todos. E o Mário Vargas Llosa a vir cair nas minhas mãos e os sorrisos que me provocou. Excelente, até agora excelente, mal posso esperar por chegar a casa para continuar. E o gato B. que hoje leva a sua primeira "pica" e a mãe dele que ontem já lhe pregou umas palmadas. Mais um agitado, acho que ele e o M. se vão dar bem... E a estranheza de certas situações e o carimbo virtual na testa da minha mente a marcar "prova superada!" (não havia um concurso qualquer que utilizava esta expressão?). E a M.L. que agora deu em imaginar desgraças constantes com a minha pessoa se não atendo com alguma celeridade. O medo, sem dúvida, de perder mais alguém. E o meu medo, dessa responsabilidade, de sentir que não me posso "perder", deixar cair, também por ela. E o meu medo, de tudo. Da vida, dos dias maus, das provas, dos "monstros", de mim. E a tarte de maracujá da avó M. (tantos Ms neste post...!) que trouxe debaixo do braço, bem haja, bem haja, que os deuses a conservem boa doceira por muitos e muitos séculos! E o sentimento de pertença, sim, ainda bem que se mantém, apesar de ter outras nuances que vêm de dentro. E o feriado de amanhã, e as visitas, e eu, eu a andar para a frente, a levantar-me todos os dias e a andar. Não "porque tem que ser", já não. Porque quero.
terça-feira, junho 01, 2010
Exorcisando
Obrigando o corpo a trabalhar, tento manter o equilíbrio numa só perna, como flamingo a descansar uma das patas, enquanto coloco os braços abertos ao lado, cotovelo ligeiramente dobrado e mãos a receber a energia. Contraio os abdominais, a regra básica de Pilates, e tento fixar um ponto. Poderia ser a professora, escolha óbvia por estar mesmo à minha frente, mas não me sinto confortável a olhá-la olhos nos olhos, é algo que tenho dificuldade em fazer ultimamente. Tento a parede branca mas não serve. Ausência de pontos ou então profusão deles. Brancos. O rádio que canta a música suave que nos embala os movimentos lentos está de lado, não dá jeito. A dada altura encontro um ponto estável, firme, inequívoco. Descontraio, já escolhi a minha mira e continuo, como garça, finalmente dedicada ao equilíbrio em pleno. Mas, de repente, atento no que estou a fazer, observo e analiso a minha posição. O ponto que escolhi situa-se no chão. No chão. O meu pescoço está inclinado, a coluna não está direita, a cabeça baixa. Olho para mim e consigo imaginar-me facilmente estatelada à minha frente; olho para mim e vejo que o meu olhar me puxa. Para baixo. Pergunto-me porquê, porque terei escolhido aquele ponto, porque me sinto confortável com ele, pergunto-me porque é esta ainda a posição que me permite aguentar em pé. Tento erguer a cabeça e tremo, balanço, quase levo o pé ao chão. Tento escolher outra marca mas disperso e não me consigo fixar e entretanto o exercício acaba deixando-me a sensação absurda de incapacidade, de incumprimento.
Saio. Piso a calçada devagar, uma calçada por onde já passei outras vezes, noutros tempos. Os meus passos não são iguais a esses. Sigo, lentamente, tentando absorver o ar ainda quente das noites de Verão. Sigo e olho em redor para os prédios, para as árvores e novamente para a calçada que desenha o caminho que os meus pés percorrem. Não reconheço os meus passos, sinto-me a vaguear embora com destino. Evito olhar de novo para o chão, esforço-me por levantar a cabeça, erguer a minha altivez. E assim, forçadamente altiva, continuo o meu caminho enquanto a brisa passa ao de leve pelas lágrimas que entretanto resolveram acompanhar-me.
Depois... depois o escuro da casa recebe-me e eu mergulho nele e, com ele a segurar-me os ombros, solto os demónios presos na garganta como já não fazia há muito tempo...
segunda-feira, maio 31, 2010
No mundo dos sonhos
Calor. O edredon que já não se adapta à época mas a humidade é saborosa e envolve o corpo, como sauna caseira. Vai e vem de quem dorme e acorda, quase sem acordar, e volta a cair no sono. "És tu? És tu, não és? Eu sabia, eu sabia que sim" e de mãos dadas seguimos até que te desprendes e sorris "espera, onde vais? vais-te embora?" e o teu sorriso diz-me que sim e que vais sem mim porque assim tem que ser. Angústia, angústia e os olhos a abrir levemente para receber a fina luz lá de fora que trespassa os cortinados. Voltando a fechar ainda te procuro mas já não te encontro. Encolho-me, fico ali sem saber o que fazer, a sensação de perda cada vez mais avassaladora "não quero voltar, não quero, fico aqui à tua espera". O calendário e as suas folhas mostrando os quadrados dos números, a folhear-se à minha frente, as datas que não quero ver porque eu não sou pessoa de datas e quero ser cada vez menos. Não quero datas formais de coisas nenhuma, não quero. Os acontecimentos têm o seu lugar no dia em que aconteceram e na nossa alma. Se depois faz uma semana, um mês ou um ano, não interessa. Não interessa que o tempo tenha passado, não interessa, só interessa o que está para a frente e o que levamos connosco, cá dentro, e o que está cá dentro não obedece às regras do tempo comum. Pode para sempre existir como se fosse presente, pode esfumar-se sem deixar rasto como se nunca tivesse acontecido. Levanto-me, tento desviar-me mas o calendário, daqueles em bloquinho, com números a vermelho, consegue sempre pôr-se à minha frente. Fico zangada, sinto a raiva a apoderar-se e dou-lhe um pontapé com toda a minha força. "Sai! Já disse que não te quero!". Consigo o meu propósito para depois ser transportada para aquela casa, da minha infância e não só, tão minha como eu. Sinto o cheiro, vejo as cores, é Verão. De repente, estão todos lá, curiosos com a forma como me apresento. Todos a querer chegar-se, para saber e integrar na sua vida, ansiosos até. "Mas... espera... eu não sei se quero, eu ainda não sei o que significa... esperem lá, não me pressionem!". Grito para que recuem, para que me deixem em paz. Estão a sufocar-me com as suas mãos, com os seu olhos, com o seu interesse em demasia e eu não me sinto confortável. "Basta! Não vou deixar! Há-de ser à minha maneira." Mas depois ouço a famosa frase "tens que tratar bem a vida para que ela te trate bem a ti e não tens tratado...". Medo, muito medo dos erros e das suas consequências que na boca dela são sempre definitivas e desastrosas. "Há alturas em que enveredamos por um caminho e isso define toda a nossa vida, não havendo volta atrás" ouço também. "Cala-te! Chega, não quero ouvir mais isso!" e fujo, de mãos nos ouvidos, porque as palavras já entraram e já feriram e eu não quero que entrem mais porque há olhares que já não me saiem da cabeça e outras palavras e gestos e expressões e por isso chega, já tenho comigo o bastante. Fujo e dou por mim num espaço aberto, cabeça encostada à gata felpuda tricolor e o seu padrão a pintar o céu. Sozinha, sinto saudades, enormes, imensas saudades de gente, de momentos, de conversas, de músicas que embalavam os meus dias, de planos, de sorrisos. Saudade que cai como um manto e que eu absorvo. E ali fico, no fofo, a sentir a dor que a saudade me dá, a saboreá-la em cada célula, testa enrugada, punhos cerrados, a tristeza a emoldurar os olhos. Mas a campainha começa a cutucar-me no ombro com o seu dedo indicativo. Cutuca, cutuca, cutuca... É o dia que chegou e quer começar a correr. É o dia que diz "por agora chega, logo à noite, quem sabe, há mais".
Frase do dia
"Usually when people are sad, they don't do anything. They just cry over their condition. But when they get angry, they bring about a change."
Malcolm X
Malcolm X
(e eu, quando me zango, sou do piorio..!)
domingo, maio 30, 2010
Busy, busy bee
Em resposta à pergunta: o que fazias se ganhásses o euromilhões?, eu respondo, sem sombra de dúvida, arranjava uma empregada que viesse cá todos os dias e deixava de ter que carregar feito mula com os sacos do supermercado e depois arrumar as compras e limpar liteiras de gatos e varrer e aspirar e fazer a cama e estender roupa e o diabo!!
Não nasci para isto...
sexta-feira, maio 28, 2010
A perder a paciência e, não tarda, o "tino" também!
Não dá. Por mais que me tente abstrair, por mais que tape os ouvidos com as mãos, por mais que ponha phones... não dá! A minha sala de trabalho é uma autêntica feira do relógio em ponto pequeno!!!! Mas não pequeno o suficiente...
Só que em vez de pregões temos: conversas ao telefone com advogados que estão a tratar do processo de captura de um ex marido tresloucado que lhe quer chegar a roupa ao pêlo; sermões ao filho adolescente sobre os testes e as notas "e o que é que estás a fazer em casa a esta hora??"; discussões com fornecedores; cusquices várias; histórias da vida de toda a gente, das próprias inclusivamente, com pormenores que se dispensavam; toques de telemóvel; comentários às notícias porque, vá-se lá saber porquê, hoje a televisão está ligada desde de manhã; "tricas" e maledicências ao telefone com esta e aquela que também pertencem à associação de pais da escolinha do filho e, pelo meio, organização com os restantes progenitores da festa de final de ano incluindo definição de quantos queques vão ser encomendados, se é Ice Tea ou sumo de laranja ou "Bongo" e qual o valor a pagar pelo palhaço!
Irra!!!
quinta-feira, maio 27, 2010
Fundo do mar
Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados
Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço
Mia Couto
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados
Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço
Mia Couto
Detalhes
Details in The Fabric
Jason Mraz ft. James Morrison
Calm down
Deep breaths
And get yourself dressed instead
Of running around
And pulling all your threads and
Breaking yourself up
If it's a broken part, replace it
If it’s a broken arm then brace it
If it's a broken heart then face it
And hold your own
Know your name
And go your own way
Hold your own
Know your name
And go your own way
And everything will be fine
Hang on
Help is on the way
Stay strong
I'm doing everything
Hold your own
Know your name
And go your own way
Hold your own
Know your name
And go your own way
And everything
Everything will be fine
Everything
Are the details in the fabric
Are the things that make you panic
Are your thoughts results of static cling?
Are the things that make you blow
Hell, no reason, go on and scream
If you're shocked it's just the fault
Of faulty manufacturing.
Everything will be fine
Everything in no time at all
Everything
Hold your own
And know your name
Go your own way
Are the details in the fabric (Hold your own)
Are the things that make you panic (Know your name)
Are your thoughts results of static cling? (Go your own way)
Hold your own
Know your name
Go your own way.
Are the details in the fabric (Hold your own)
Are the things that make you panic (Know your name)
Is it Mother Nature's sewing machine? (Go your own way)
Are the things that make you blow (Hold your own)
Hell no reason go on and scream (Know your name)
If you’re shocked it's just the fault (Go your own way)
Of faulty manufacturing
Everything will be fine
Everything in no time at all
Hearts will hold
Jason Mraz ft. James Morrison
Calm down
Deep breaths
And get yourself dressed instead
Of running around
And pulling all your threads and
Breaking yourself up
If it's a broken part, replace it
If it’s a broken arm then brace it
If it's a broken heart then face it
And hold your own
Know your name
And go your own way
Hold your own
Know your name
And go your own way
And everything will be fine
Hang on
Help is on the way
Stay strong
I'm doing everything
Hold your own
Know your name
And go your own way
Hold your own
Know your name
And go your own way
And everything
Everything will be fine
Everything
Are the details in the fabric
Are the things that make you panic
Are your thoughts results of static cling?
Are the things that make you blow
Hell, no reason, go on and scream
If you're shocked it's just the fault
Of faulty manufacturing.
Everything will be fine
Everything in no time at all
Everything
Hold your own
And know your name
Go your own way
Are the details in the fabric (Hold your own)
Are the things that make you panic (Know your name)
Are your thoughts results of static cling? (Go your own way)
Hold your own
Know your name
Go your own way.
Are the details in the fabric (Hold your own)
Are the things that make you panic (Know your name)
Is it Mother Nature's sewing machine? (Go your own way)
Are the things that make you blow (Hold your own)
Hell no reason go on and scream (Know your name)
If you’re shocked it's just the fault (Go your own way)
Of faulty manufacturing
Everything will be fine
Everything in no time at all
Hearts will hold
quarta-feira, maio 26, 2010
Em concha
E quando a cabeça cai na almofada e o corpo se espalha como se derretesse no colchão, a armadura desfaz-se e o que está cá dentro, antes confinado, espartilhado, vem à superfície e passa a correr pelo corpo livremente. Nesse momento, encaro, em silêncio para não incomodar, só comigo, e olho, olhos nos olhos, deixo-me levar, manuseio os sentimentos, as emoções, deixo que se sintam. Tenho esperança de assim os conhecer melhor e assim os combater melhor. Tenho esperança que se desfaçam um dia, de tanto serem manuseados. Deixo-os vir, ocupar o seu lugar, por mais que doa e dói, deixo-me cair no meio deles, sinto, deixo que invadam o espaço, deixo que não me deixem criar ilusões. Eles existem, estão lá, não adianta fugir, não quero fugir. Encolho-me, joelhos junto ao queixo, e espero. Espero e sinto. A esperança, nessa altura, esconde-se, as pontinhas de felicidade são abafadas, a noite traz o escuro e escurece-me. Espero e sinto, sinto e espero, até que o sono venha e me desligue.
terça-feira, maio 25, 2010
segunda-feira, maio 24, 2010
E dizia a F....
"Viste? E sobreviveste! Não tens orgulho de ti própria?"
Tenho, sim, tenho. Orgulho de continuar de cabeça erguida, apesar de tudo. Orgulho de ter crescido e aprendido. Orgulho de me ter conseguido manter fiel a mim mesma. Orgulho porque o desespero não levou a melhor, e houve muitos dias, muitos dias mesmo, dias negros e pesados, em que achei que estaria à beira de que isso acontecesse. E orgulho de ser quem sou e por isso conseguir ter à minha volta pessoas tão especiais.
(E se este não fosse um post sério agora começaria a cantar uma música antiga da Rua Sésamo que eu adorava e que rezava assim: "eu tenho orgulho, orgulho em ser uma vaca...!" :)))). Sim, consigo ser muito parva e sim, a música era mesmo cantada por uma vaca. O animal, bem entendido..!)
Frase do dia
"Uma história vivida não tem tempo de calendário - tem-no só no que se viveu."
Vergílio Ferreira
Vergílio Ferreira
domingo, maio 23, 2010
Naif
Quando M.L. te diz: vou só levar aqui esta plantinha que deitaram fora... prepara-te! O mais provável é que, afinal, não seja só uma plantinha sejam duas, e que venham com vaso e terra, e... a pesar 379 kilos cada uma! E não, ela não vai mudar de ideias quando vir que metade da terra entornou e caiu em cheio nos teus pés enchendo os espaços que as sandálias deixam em aberto (aaarrgghh!), quando perceber que as plantas te arranham os braços e o que mais apanharem pela frente e que és bem capaz de dar um jeito à coluna daqueles que te impedem de levantar durante três dias. Não... o que ela vai dizer é: vá, vamos lá! nós conseguimos! caramba, que fraquinha me saíste!!
sexta-feira, maio 21, 2010
Meio mais um
Pois é, dragão, pois é. Podes continuar a fixar-me que eu aqui estou, sem desviar o olhar. Mas, a partir de hoje, também estou a sorrir... :)
Baltazar
Mais um "rei mago" a entrar na minha vida. Há demasiado tempo atolada em "fins", recebo agora, finalmente e de braços abertos, um "começo".
quinta-feira, maio 20, 2010
Poesia
Porque gosto deste poema, porque gosto deste autor, porque apesar de ser triste me faz lembrar uma fase muito boa da minha vida em que o li vezes sem conta, porque foi ele que me "apresentou" a Eugénio de Andrade.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Frase do dia
"Entra no teu peito: bate e pergunta ao teu coração o que sabe ele."
William Shakespeare
Já bati, já bati... continuo a bater... acho que o meu não sabe grande coisa...
quarta-feira, maio 19, 2010
"O difícil não é imitar a grandeza com a desmesura. O difícil é que a alma não seja anã."
Disse Vergílio Ferreira. E digo eu. Principalmente agora que vejo, como nunca!, como uma alma pode ser anã.
Todos vemos a maldade que há no mundo, todos assistimos a ela, mais de perto, mais de longe, todos os dias. Todos somos envolvidos por ela, todos a partilhamos quanto mais não seja porque é neste planeta que ela mora e nós também. Vejo-a como aqueles dragões de papel japoneses, serpenteando pelo ar entre as pessoas, tocando uns e outros, minando aqui e ali, vemos nas notícias, nos jornais, nas bocas do mundo. Mas, que me lembre, no seu serpenteio, nunca o dragão tinha parado, voltado o focinho e olhado directamente para mim. Nunca, nas suas voltas, me tinha fixado com os seus olhos amarelos como agora. E ali está ele, ainda ao longe, fazendo ruídos ainda meio surdos, velados mas encarando-me como quem diz: és tu agora a minha presa. E aqui estou eu, pela primeira vez a sentir o que é ter a maldade pura frente a frente. E é estranho, muito estranho. Mas, estranhamente também, não tenho medo. Não sei se alguma vez vou conseguir destronar o dragão de papel que serpenteia com os seus olhos amarelos, não sei, mas o que é certo é que não tenho medo. Aqui fico, a encará-lo também, calma, segura, a habituar-me a viver com a sensação de ser alvo de puro veneno, a não tentar arranjar explicações porque isto nada tem de lógico, simplesmente parada também, a fixá-lo. Vem, dragão, vem. Cá te espero.
terça-feira, maio 18, 2010
Prece
Há pessoas doentes. E há pessoas cuja mente é tão deformada, tão pequena, tão triste, tão desiquilibrada, tão demente que não existe palavra no dicionário para as classificar. E não é que trabalho com uma delas?!? Já estou como o outro: Deus me dê paciência porque se me der forças um dia destes eu estrangulo-a!!!
De costas voltadas
Sim, sei, lembro-me. E, propositadamente, esforço-me para olhar para outro lado. Porque não vale a pena olhar de frente, encarar mais uma vez porque sei bem o que lá está, sei de cor, sei de tantas vezes ter visto e revisto. Portanto, para quê? Olhar de novo para quê? Prefiro olhar noutro sentido, deixá-lo para trás da nuca. Sei que está lá, sei talvez melhor que ninguém, sinto a sua energia, o seu sopro mas prefiro ignorar. Já o olhei muitas vezes, já me cansei de olhar, já não há nada de bom que possa tirar dali por isso chega. Conscientemente, viro a cara.
Só isto...
"Pela centésima vez começo um diário. Diabo! Não me serei capaz de obrigar a reflectir cinco minutos por dia?/.../ o diário escrito com fins de publicação é idiota e pedante. Mas eu não vou escrever para publicar. Quero apenas tornar claras as duas ideias que por dia me couberem, ou forçá-las a nascer se me não couberem. Só isto!"
Vergílio Ferreira
segunda-feira, maio 17, 2010
Balanço
Em pouco mais de 24 horas já emborquei os quadradinhos de chocolate preto que restavam, mais de metade de uma lata de leite condensado cozido, uma queijada de leite e uma fatia de bolo de laranja. Aposto que se alguma melga tiver a ousadia de se aproximar de mim agora é bem capaz de se tornar diabética...
Um dia...
"...Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"...
Um dia percebemos que somos muito importantes para alguém mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas aí já é tarde demais...
Enfim...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação."
Atribuido por alguns a Mário Quintana mas sem confirmação
domingo, maio 16, 2010
Azul
Acordei tarde, dormi demais. Vale-me o amigo Ben-U-Ron. Larguei tudo como estava e fui apanhar sol, porque felizmente está sol, e o parque recebe-me sempre bem. Busquei o meu caderninho mas não o tinha comigo, tento escrever agora mas não me apetece ir atrás das palavras que passaram por mim nessa altura mas que já se recolheram. O chocolate com pimenta-rosa já acabou e concluo que adoro estes dias em que o organismo se manifesta de forma diferente porque são a desculpa perfeita para fazer disparates alimentares. Aguarda-me uma lata de leite condensado cozido ou, pelo menos, assim o espero... A fita do estore ficou-me outra vez na mão, m****! E eu que já estava habituada a acordar com o sol velado a iluminar-me suavemente por entre a transparências e as flores estilizadas. Agora não sei mesmo se tem conserto. Enfim, será o que tiver que ser. Apetece-me sair, sentir o calor na pele. Mas aqui ando meio às voltas sem saber o que fazer primeiro. Parece que os meus dias têm mesmo que começar com a abertura das portas e janelas para deixar entrar o ar da manhã. Parece que se esse ritual não se cumprir, se não receber essa lufada de luz e brisa no início de cada dia, ainda é ontem, não se faz a passagem. Estranho ser, eu, estranho ser. Mas chega! Chega de moleza que o dia passa num instante e há que ser aproveitado. Espera-me uma semana com trabalho chato que ando a adiar mas que tem que ser feito. Por isso, toca a recarregar a bateria. O céu está azul e quando é assim sinto sempre que os meus olhos se fundem com ele. É bom. Portanto, vou ali deixar-me fundir e já venho.
sexta-feira, maio 14, 2010
Isto é um maná...
- Querida, vê lá que aqui está frio! Não venhas toda descotada que ópois ainda te constipas!
Constatação #15
Gosto de me sentir "alimentada"... mais do que isso, necessito sentir-me "alimentada"...
quarta-feira, maio 12, 2010
O gosto ao dedo vezes... uns quantos!
De novo as barraquinhas, com direito a cachorro daqueles com tudo em cima e fartura acabadinha de fazer. Comida saudável como só ela...!
E livros, muitos, por todo o lado, a dar comichão nos dedos. E estes tiveram o prazer de agarrar e trazer uns infantis para dois seres muito especiais, um famoso do Cordon Bleu (sim, sim, finalmente na minha mão e podendo dizer que é minha e de mais ninguém aquela receita divinal, toma, toma!), um romance histórico e um de ficção sobre Goya, estes dois grandes, volumosos, com muitas páginas para ler, tal como eu gosto.
Foi bom. É sempre bom. Quero lá voltar mais uma vez. Não sei é se devo, tendo em conta as mais recentes notícias sobre a proposta de corte nos subsídios... o que me leva a outro tema: e que tal haver incentivos, ou pelo menos possibilidade de descontar no IRS, para compras ou actividades de fomento da cultura desta nossa sociedade tão pouco ilustrada?? Isso é que era...!
Frase do dia
"Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo."
Mário Quintana
terça-feira, maio 11, 2010
"Fábulas"
Café mais restaurante mais porto de abrigo em dia de chuva, para um grupinho de leitores a querer ser escritores, bem no coração do Chiado. Pelo menos neste Sábado assim foi. E lá nos juntámos, umas quantas almas diferentes e desconhecidas, à roda da mesa de madeira escura, rodeadas de quadros e côr, a dar largas à imaginação e a aprender o que é isto de pôr no papel as palavras com vida e graça. Uma prenda comprada a pensar em mim, um dia que me deixou mais saciada de coisas boas.
Éramos sete, como alguém bem referiu, confesso que não nos tinha contado. Sete mulheres distintas com um gosto em comum. MG, mulher de 62 anos, professora reformada do 1º ciclo, que costumava incentivar os seus alunos para a escrita ajudando-os a encher as páginas de papel manteiga dos livrinhos que comprava de propósito para o efeito. Viúva há pouco tempo mas com muita vida ainda para viver, vida daquele tipo que se vê nos olhos e não no bilhete de identidade. A C., de 35 anos, trabalha num hospital dos mais dolorosos da capital, na área de cuidados paleativos. Diz que, entre colegas, usam o humor para conseguir descontrair da tristeza que vêem todos os dias e ela usa também a escrita. Já publicou alguns livros de poesia, já concorreu a diversos concursos literários e colabora com uma publicação on line. A M., de 34 anos, considera a escrita uma "necessidade física", um escape, algo que lhe faz bem. Apesar de já não ser novata nestas coisas dos workshops, há já algum tempo que a sua vida roda à volta de duas pequenas crianças e por isso sentiu que estava na altura de voltar a criar espaço para si mesma. Por último, a G., bancária e escritora em part time a quem já só falta "um bocadinho assim" para que o segundo livro apareça nas bancas. As outras três eram eu, a C. "irmãmiga" e a R. que tinha consigo a tarefa de nos orientar.
O dia passou rápido, de tão entretidas que estávamos a beber umas das outras e de nós mesmas, do espaço, do papel, e os exercícios pareceram poucos e deixaram água na boca. O meu preferido consistiu em começar a escrever, sobre qualquer coisa que nos viesse à cabeça sendo que, de minuto a minuto, nos era dada uma palavra ou expressão que deveríamos incluir no nosso texto. E tinhamos que o fazer antes de receber a palavra seguinte, portanto, no espaço de um minuto. As palavras/expressões foram: rendilhado, inestética, grunhidamente, amplamente ambígua, lógica ilógica, invólucro e desumidificador. O que me saiu foi isto:
O dia passou rápido, de tão entretidas que estávamos a beber umas das outras e de nós mesmas, do espaço, do papel, e os exercícios pareceram poucos e deixaram água na boca. O meu preferido consistiu em começar a escrever, sobre qualquer coisa que nos viesse à cabeça sendo que, de minuto a minuto, nos era dada uma palavra ou expressão que deveríamos incluir no nosso texto. E tinhamos que o fazer antes de receber a palavra seguinte, portanto, no espaço de um minuto. As palavras/expressões foram: rendilhado, inestética, grunhidamente, amplamente ambígua, lógica ilógica, invólucro e desumidificador. O que me saiu foi isto:
"As coisas mudaram. Ainda não sei para que forma mas mudaram. Crescemos juntas, embora tu aches que só eu é que cresci, mas crescemos em paralelo, muitas vezes não nos tocando sequer. E esse era o meu mal para ti. Porque me querias mais perto, mais tua. Mas as nossas almas são diferentes, são diferentes os seus rendilhados e muitas vezes, talvez vezes demais, não formam juntos um padrão. Dói-te isso, eu sei, ainda mais porque julgaste sempre que quem estava mal era eu, que a minha forma era inestética, errada, e que a tua era aquela que devia ser.
Mas as coisas mudaram. E se antes tínhamos alguém a fazer de fiel da balança, agora temos que ser nós a equilibramo-nos, sem saber bem como. Os sons dessa tentativa parecem grunhidos de um animal a ser forçado a algo mas é assim, grunhidamente, que vamos avançando.
Não sei bem como te encarar, como gerir a nossa relação agora, nesta esfera tão amplamente ambígua, onde a lógica ilógica impera. Mas é agora este o nosso invólucro, o invólucro desta relação com o qual temos que lidar. Olhando-o ambas com estranheza, tentamos adaptá-lo a nós e fazê-lo funcionar. Tentamos mas nem sempre conseguimos. Neste dia chuvoso, o invólucro rendeu-se à humidade. Murchou, tornou-se mole. Talvez mais umas palavras minhas possam funcionar como desumidificador e possamos tentar mais uma vez."
Mas as coisas mudaram. E se antes tínhamos alguém a fazer de fiel da balança, agora temos que ser nós a equilibramo-nos, sem saber bem como. Os sons dessa tentativa parecem grunhidos de um animal a ser forçado a algo mas é assim, grunhidamente, que vamos avançando.
Não sei bem como te encarar, como gerir a nossa relação agora, nesta esfera tão amplamente ambígua, onde a lógica ilógica impera. Mas é agora este o nosso invólucro, o invólucro desta relação com o qual temos que lidar. Olhando-o ambas com estranheza, tentamos adaptá-lo a nós e fazê-lo funcionar. Tentamos mas nem sempre conseguimos. Neste dia chuvoso, o invólucro rendeu-se à humidade. Murchou, tornou-se mole. Talvez mais umas palavras minhas possam funcionar como desumidificador e possamos tentar mais uma vez."
segunda-feira, maio 10, 2010
Senhora gaja, faz favor!
Estacionei mesmo encostada a uma esplanada. Quando ia a tirar o carro, ouço a mulher sentada na mesa ali mais perto:
- Ó pomba, baza daí que a gaja ainda te passa a ferro!
- Ó pomba, baza daí que a gaja ainda te passa a ferro!
sábado, maio 08, 2010
sexta-feira, maio 07, 2010
"Coltura", "Cultividade" ou o que lhe quiserem chamar... para mim é "tanta estupidez que até faz doer os ouvidos!"
Filho de colega para a respectiva progenitora mesmo aqui à minha frente:
- Mãe, o que é um lince ibérico?
- Olha, filho, é assim um bicho tipo cão... ou lobo...
Dificuldades
É difícil ver o bem maior. É difícil vislumbrar o propósito acima de uma simples vida, de uma simples pessoa. É difícil perceber se tudo tem um objectivo, se realmente nada acontece por acaso, se as voltas que a vida dá têm um significado maior. É difícil porque conhecemos muitas vidas que o destino fez rodopiar e não vemos que tenham alcançado, depois disso e aparentemente, nada de especial. Quantas não conhecemos nós, quantas... É difícil acreditar num futuro risonho, feliz quando o presente não nos dá nenhuma pista, quando não conseguimos ver se o que vamos construindo terá, no final, a forma desejada. É difícil ouvir "aceita-te e aceita a tua vida" quando não gostamos do que vemos e a mim sempre me ensinaram a não aceitar sem questionar, sem pôr em causa, sem me bater por aquilo em que acredito e quero. É dífícil aceitar que tenho que aceitar. É difícil abraçar as contrariedades, desgostos, mágoas, tristezas e lágrimas e sentir que me irão levar a algum lado melhor. E se for pior? E se for pior? Porque elas doiem e seria tão mais fácil mandá-las embora... mas, pelos vistos, não é assim a minha orgânica, não mando embora, recebo. Não porque queira mas porque o Universo decidiu que seria essa a minha construção, feita de células que não fogem, que não se protegem, que levam os embates para casa. Resta-me, pois, acreditar que sou assim com um propósito, que a minha massa me vai levar mais alto, que terei capacidade para transformar o que recebo em algo mais e mais benéfico para mim e para os outros. É difícil...
quinta-feira, maio 06, 2010
Os degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde os Deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
Mário Quintana
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde os Deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
Mário Quintana
Tapa "cofrinho"

Butt Crack Shield
Vou já mandar vir uns quantos para oferecer aos mecânicos e homens das obras que se me deparem pela frente! E faço-o por mim, acreditem, é por mim...
Vou já mandar vir uns quantos para oferecer aos mecânicos e homens das obras que se me deparem pela frente! E faço-o por mim, acreditem, é por mim...
quarta-feira, maio 05, 2010
Em blocos
Constatações a assentar como cimento, a tapar as fendas. Como se já não devesse haver lugar para brechas mas, ainda havendo, a massa das constatações é entornada e preenche o espaço para que não restem dúvidas, para alisar e compactar a base, para a tornar una e livre de imperfeições, cobrindo completamente e de forma uniforme o que está por baixo para que quem olhe nem venha a saber que alguma vez existiu. E este estranho preenchimento, pesado e silencioso, é inevitável. Talvez tenha sido sempre e os olhos do coração olhassem para outro lado, talvez tenha começado há muito mais tempo e só agora se revele de forma concreta. Talvez, talvez, talvez. Ainda assim, a inevitabilidade é mais amiga, mais agradável, acaba por nos desculpar, acaba por ajudar a apaziguar o espírito de quem por natureza não se conforma e não aceita de ânimo leve que a vida lhe troque as voltas e tenha mão no seu destino. É, então, preferível escolher a inevitabilidade como companheira de caminhada e deixar-se cimentar de vez.
Frase do dia
"You don't necessarily decide who walks into your life but you can decide who you let stay and who you let go!"
Anónimo
Anónimo
terça-feira, maio 04, 2010
O cúmulo nem sei de quê...
A de sempre, ao telefone:
- Sim, já está marcada a véstoria à obra... sem véstoria não podemos avançar...
A de sempre, à conversa com outra pessoa:
- Epá, estou a ver que isso vai ser uma festa de arroba!
E a de sempre, a ler um documento e a comentar com os restantes:
- Ai, que horror, este texto tem tantos erros ortográficos, as pessoas não sabem mesmo escrever, que vergonha!
(agora digam-me, sinceramente... dá vontade de lhe bater com um pano encharcado e quente ou não dá?!?)
segunda-feira, maio 03, 2010
Conversas, táxis, baterias e cabos, a cabeça a estalar, o domingo que se foi num instante, a segunda que ainda vai a meio...
Depois de concluir, em plena madrugada, que o meu carrinho iria ter que ali passar o resto da noite, lá me enfiei num táxi. Sono, muito, muitas palavras às voltas na cabeça, e ainda bem porque isso significa que não caiem em saco roto, satisfação por termos estado as duas à conversa horas e horas como se ainda andássemos no tempo na faculdade... mas voltando ao táxi e respectivo condutor, homem de meia idade, certamente acabado de entrar ao serviço, fresco como uma alface... e eu a cabecear... "ouça, este é o caminho mais rápido, sabia? Se faz este trajecto muitas vezes, aprenda que isto é um espectáculo. E sabe porquê? Hã? Hã??? Porque só tem dois semáforos! Dois, mais nenhum! Quer ver, quer ver? Olhe, é este agora e depois só o outro lá mais adiante. É limpinho! Porque se for por ali, tem este, aquele e aquele e mais aquele, seis! seis, ao todo! E pelo outro lado também tem o da Avenida tal e mais o outro e são também uns cinco ou seis, 'tá a ver? Agora por aqui não, são dois, dois! Portanto, foi aquele que ali passámos e agora vai ser este aqui. E é limpinho, poupa imenso tempo! Porque pelo outro lado são seis.... blá, blá, blá, blá.... dois!.... blá, blá, blá... cinco.... blá blá, blá... dois, 'tá a ver?!". Estou, estou a ver tudo porque o senhor não me deixa alternativa...
A manhã chega, o metro torna-se no melhor amigo. A mãe tem o almoço do seu dia e depois toca a marchar para ver se consigo resolver o problema. Ok, quem tem cabos, quem não tem, ok, ao final da tarde resolve-se a questão. Pelo caminho mais conversa, conversa boa de quem entende e se identifica a confortar cá dentro porque, ao menos, tudo isto afinal serve para alguma coisa, quanto mais não seja ajudar alguém que está agora a passar por lá. E as palavras que ficam, soltas... Mas vamos lá meter mãos à obra... ok, não está a dar... troca cabos, mexe e remexe, chama mais ajuda e... outra vez... certo, o carro não mexe mesmo. O vento sopra cortante, já estamos todos a tremer, as minhas mãos ficam dormentes e a cabeça dói que se farta... até há faíscas e tudo, os cabos colocam-se e recolocam-se mais uma e outra vez mas a bateria está muda... ou surda, ou sei lá. Por isso, outro táxi, que já vão sendo horas. A cabeça estala cada vez mais, ao ponto de nem conseguir abrir bem os olhos, como se estivesse a levar consecutivamente com um martelo que, a cada embate, provoca ondas de dor por toda a cabeça. Depois de dizer que os portistas são "todos uns trafulhas e bandidos e merecem é levar no trombil", e chegados ao intervalo do jogo, o senhor taxista resolve mudar de estação para aliviar o stress. Bad timing, muito bad timing... o rádio grita Guns n' Roses e ele resolve pôr ainda mais alto "porque isto é que é rock do bom! Não é nada dessa treta electrónica que os putos ouvem hoje em dia! Isto é que é! Do meu tempo, rock do meu tempo que eu só tenho quarenta e poucos... e tenho isto tudo lá em casa! Esta é muita boa, não é? É aquela do filme do Extreminador "Iu cu bi main..." não é? Hein? "Iu cu bi main... hein, hein?? Hehehehe..". E posto isto é noite de domigo.
Salvam-me o jantar quentinho, os mimos e o Brufen...
Hoje, liga para ali, liga para acolá, e o reboque lá chega. Passeio pela cidade "nas alturas" e chegada ao mecânico mais querido do mundo que me pergunta: esta bateria foi trocada há muito tempo? Pois, não sei... e não sei porque não, porque não me lembro de ter ouvido, porque sou só eu a ter que tratar destas coisas, porque me sinto sozinha e desamparada, porque foi só há uns meses e eu ainda não sei fazer as coisas, porque... porque... porque... e as lágrimas a querer saltar. Mas o mecânico mais querido do mundo percebe, deita-me a mão e conforta-me dizendo que amanhã, dê por onde der, tem tudo arranjadinho para mim. Ainda tempo para te chatear, F., com as minhas lamúrias, ainda tempo para me sentar no banco de jardim a deixar que o vento me seque a cara.
Respiro fundo, levanto-me e sigo o meu dia.
domingo, maio 02, 2010
Centro de Saúde
(plageando...)
"Moça" dos seus quarentas e muitos, com grandes curvas e contracurvas, de leggings e camisa comprida, tudo vermelho:
- Bom dia, olhe, vinha cá para levar mais uma vácina daquelas, que são três, está a ver? Já tomei duas, venho agora para a última... errr... ai, como é que se chama... ah!, é a vácina do tétamo!
- A vacina do tétano...?
- Sim, isso, do tétamo.
E às 5 da matina eis que o bicho não pega...
É impressionante como, de repente, olho em volta e vejo que quase toda a gente tem cabos para reavivar baterias de automóvel... sinto-me uma extra terrestre...
sábado, maio 01, 2010
O gosto ao dedo vezes quatro
Não, ainda não arrumei a casa. Deixo para amanhã para hoje me mover noutros meandros, nos meandros saborosos das barraquinhas de livros (e farturas!) que visito com entusiasmo desde criança. Foi a minha primeira vez este ano, espero que haja mais vezes ainda. E na mão, Dickens, Gabriel Garcia Marquez, Mário Vargas Llosa e, finalmente!, "O Deus das pequenas coisas". "A cabana do pai Tomás" ainda não veio desta e a "História da Vida Privada" continua a pesar mais que os seus volumes... um dia, quem sabe. Mas hoje, a minha estante ficou mais completa e eu também.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






